Condecorações: a história de Maria Pérola Sodré
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Condecorações: a história de Maria Pérola Sodré

21 março 2025

Maria Pérola Sodré foi a integrante viva mais antiga da história do Escotismo brasileiro, chegando aos 97 anos antes de seu falecimento em 2019. Natural de Niterói, sua trajetória é uma fonte de inspiração, tanto pelo seu incansável trabalho na difusão do Escotismo quanto por sua atuação na coordenação do atendimento às vítimas do incêndio do Gran Circus Norte-Americano, tragédia que abalou a cidade em 1961 e vitimou centenas de pessoas.

Mas, para contar sua história, voltemos ao início.

Nascida em 1922, cresceu em um lar profundamente ligado ao Escotismo. Seu pai, o Almirante Benjamin Sodré, era escoteiro; sua mãe, bandeirante; e até seu cunhado e cunhadas faziam parte do movimento. Desde cedo, seguiu esse caminho, ingressando na Federação de Bandeirantes em 1927.

Guiada pelo pai — autor do Guia do Escoteiro (1925), pioneiro da União dos Escoteiros do Brasil e reconhecido como o “Escoteiro nº 1” do país —, Maria fortaleceu ainda mais seus laços com a cultura escoteira. A influência paterna foi decisiva em sua conexão com a fundação do Grupo Escoteiro do Mar Gaviões do Mar (4°/RJ), em Niterói.

Em 1937, a Marinha cedeu a Ilha da Boa Viagem aos Escoteiros do Brasil, nomeando o Almirante Sodré como guardião. Após sua morte, Maria assumiu a tutela da ilha, que marcou sua infância, dedicando décadas ao seu cuidado e preservação.

Tornou-se chefe do movimento bandeirante em 1940. Carinhosamente apelidada de Gaivota Branca, foi presidente de honra do 4º/RJ Grupo Escoteiro do Mar Gaviões do Mar e dedicou décadas à formação de novas gerações. Entre as décadas de 1960 e 1990, dirigiu cursos de formação em todo o Brasil, além de atuar como Conselheira Distrital. Seu comprometimento era tão notável que chegou a liderar oito alcateias simultaneamente, sendo aclamada como Akelá Líder.

Uma de suas atuações mais marcantes ocorreu em 1961, quando assumiu um papel fundamental no atendimento às vítimas do incêndio do Gran Circus Norte-Americano, ocorrido em 17 de dezembro daquele ano. A tragédia, considerada o incêndio com maior número de óbitos já registrado no Brasil, durou apenas dez minutos, mas deixou um saldo devastador: 503 mortos, segundo estimativas oficiais, sendo sete em cada dez vítimas crianças.

O jornalista Mauro Ventura, autor do livro O Espetáculo Mais Triste da Terra — O Incêndio do Gran Circo Norte-Americano, destacou a dimensão da catástrofe: “Jamais tantos brasileiros morreram em tão pouco tempo e no mesmo lugar.”

O trabalho de Paulo Knauss, A cidade como sentimento: história e memória de um acontecimento na sociedade contemporânea — o incêndio do Gran Circus Norte-Americano em Niterói, 1961, apresenta entrevistas de Maria Pérola Sodré, que, na época, liderava o grupo de escoteiros e lobinhos na cidade. Em seu depoimento, ela relembra a organização do grupo para mobilizar doações de sangue e coordenar diversas ações voluntárias, como levar brincadeiras às crianças internadas e arrecadar medicações e outros insumos essenciais.

O Estado de S.Paulo, 20/12/1961 – Estadão Acervo 05/10/2017

Em um dos relatos, Maria Pérola descreve a intensidade do trabalho realizado:

“Chegava muito remédio, então tinha que separar os objetivos de cada remédio… O pessoal recolhendo gelo na rua, recolhendo doações na rua, batia nas casas pedindo lençol, ventilador…”

Além disso, Maria Pérola Sodré atuou por quase dois anos organizando o trabalho voluntário, praticamente gerenciando o hospital que havia sido fechado após a tragédia. Ela também fundou o único grupo de escoteiros do mar a funcionar dentro de um hospital, um feito único até hoje.

Em um relato sobre esse período, Maria Pérola compartilhou:

“Deixei o hospital no dia em que o último menino recebeu alta, um ano e meio depois do incêndio. Sou professora e, na época, dividia meu dia entre os afazeres em casa, a escola e o Hospital Antônio Pedro. […] Nosso maior objetivo era amenizar o sofrimento das vítimas e ajudá-las a superar a tragédia. Por isso, criamos o grupo escoteiro lá dentro mesmo. Lembro que eu levava um pequeno barco de madeira, uma bacia com água e boias para simular os exercícios que deveriam ser feitos no mar.” (Entrevista a Diego Barreto, jornal O Globo, 10/12/2011).

As paredes brancas e intimidantes do hospital deram lugar a uma verdadeira sede escoteira, decorada com símbolos e até com a bandeira hasteada. Os pacientes, muitos com os pulmões comprometidos pela fumaça, receberam apitos e aprenderam o código Morse. O simples ato de assoprar, necessário para se comunicar, também ajudava no descongestionamento das vias respiratórias sem que os pacientes percebessem. Além disso, usaram o sistema de semáforo (alfabeto sinalizado com bandeiras amarelas e vermelhas) para se comunicarem entre si, praticando uma forma lúdica de recuperação.

Apesar de todo o grandioso trabalho realizado, Maria Pérola afirmou:

“Ali nós cumprimos a nossa missão. Porque o lema do lobinho, que é a criança de sete a onze anos, é: ‘o melhor possível’. Tudo o que ele faz, tem que ser o melhor que ele pode…”

No fim da década de 1980, Maria Pérola se desligou das funções diretivas nacionais, sendo agraciada com o título de Formadora Emérita. Continuou como diretora ativa do Grupo Escoteiro do Mar Gaviões do Mar até 2009, quando passou a ser presidente de honra. Mesmo com 96 anos, ela ainda recebia reuniões de chefes em sua residência e participava de representações e festividades, demonstrando o compromisso que tinha com o movimento.

Professora de matemática por profissão, aposentou-se “por força do Estado”, como costumava dizer, mas sua energia e dedicação não a impediram de atuar em várias outras áreas. Ao longo de sua vida, recebeu inúmeras honrarias de diferentes grupos, incluindo os Escoteiros, a Marinha do Brasil, o Município de Niterói, o Rotary Club, a Universidade Federal Fluminense e a Igreja Católica do Rio de Janeiro. Também foi a segunda mulher a receber o Tapir de Prata, a mais alta condecoração dos Escoteiros do Brasil.

Sua trajetória inspiradora é eternizada não apenas na memória de quem teve o privilégio de conviver com ela, mas também por meio de uma honraria especial que leva seu nome: a Medalha Cruz de Valor Maria Pérola Sodré.

O que é a Medalha Cruz de Valor Maria Pérola Sodré e quem pode recebê-la?

Para reconhecer e agradecer os serviços prestados ao Escotismo, os Escoteiros do Brasil estruturaram um sistema de reconhecimento composto por três categorias principais:

  • Elogios: Sempre feitos por escrito, servem para expressar gratidão por ações ou apoios significativos, mas que ainda não justificariam a concessão de um Diploma de Mérito ou de uma condecoração.
  • Diplomas de Mérito: Destinados a pessoas ou entidades que prestaram serviços relevantes ao Movimento Escoteiro, como apoio a grandes eventos, doações ou cessão de instalações. Geralmente, são concedidos àqueles que já receberam Elogios Escritos, como forma de reconhecimento e incentivo. Existem três tipos: Local, Regional e Nacional.
  • Condecorações: Representam a mais alta forma de apreço e gratidão do Escotismo. São destinadas a indivíduos ou entidades que demonstraram dedicação excepcional, coragem e altruísmo em ações notáveis. Essas honrarias buscam preservar a memória de feitos extraordinários com imparcialidade e rigor.

Dentro desse sistema de reconhecimento, a Medalha Cruz de Valor Maria Pérola Sodré é uma condecoração exclusiva para membros juvenis do Movimento Escoteiro.

Seu objetivo é reconhecer ações de grande relevância e destaque nos campos das ciências, cultura e esportes, tanto em nível nacional quanto internacional. Para serem consideradas, as ações devem ter uma projeção e impacto reconhecidos amplamente. Dessa forma, iniciativas restritas ao âmbito municipal ou estadual não se qualificam para a concessão da medalha.

Ainda parece abstrato? Em breve, compartilharemos histórias inspiradoras de pessoas que receberam essa honraria!

A Medalha Cruz de Valor Maria Pérola Sodré pode ser concedida mais de uma vez à mesma pessoa, permitindo o uso simultâneo de todas as condecorações recebidas.

Mais do que um reconhecimento pelas ações de seus recipientes, essa honraria mantém vivo o legado de uma mulher fundamental para a história do Escotismo no Brasil. Cada condecoração representa a continuidade de sua dedicação, liderança e impacto, ecoando além do presente.

Se há um caminho a ser trilhado, que seja o da coragem e do compromisso! Ao receber essa medalha, você demonstra com orgulho que está seguindo os passos de alguém que salvou e inspirou inúmeras vidas com suas virtudes e conhecimentos.

Quer saber como conquistar a sua?

Confira todos os detalhes no Manual de Reconhecimento e Condecoração!


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

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