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21/01: Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa — O Escotismo é para TODOS! 

21/01: Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa — O Escotismo é para TODOS! 

O dia de hoje, 21 de janeiro, é o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. A data foi instituída pela Lei nº 11.635/2007 em homenagem à Ialorixá Mãe Gilda (Gildásia dos Santos e Santos), vítima de intolerância religiosa no fim dos anos 1990. Ela, sua família e o seu terreiro de candomblé Ilê Axé Abassá de Ogum, localizado em Salvador (BA), sofreram difamações e atos de violência que culminaram em um infarto fatal, em 21 de janeiro de 2000. Sete anos depois, a data passou a integrar o Calendário Cívico da União como símbolo da luta pela diversidade religiosa.

Foto: Elói Corrêa/GOVBA

Além disso, em 2014, em meio às comemorações do mês da Consciência Negra, foi inaugurado um busto de bronze em homenagem à memória de mãe Gilda. A estátua fica no parque do Abaeté, em Itapuã, e já foi alvo de vandalismo pelo menos 2 vezes. 

Em 2024, a Ouvidoria Nacional do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania registrou 2.472 denúncias e 3.853 violações à liberdade religiosa, representando uma alta de 66,8% comparado à 2023. E se considerados os dados registrados entre 2021 e 2024, o crescimento das denúncias de violações foi de 323,29%.

Já em 2025, a pesquisa “Respeite o meu Terreiro” constatou que 80% dos terreiros analisados sofreram com racismo religioso, 76% foram alvo de diversas formas de violência, sendo que 74% foram ameaçadas, depredadas ou destruídas. Mas a violência também se estende ao ambiente digital, as lideranças religiosas informaram que 52% dos terreiros sofreram assédio ou racismo religioso na internet.

“Essa data nos lembra que a intolerância no Brasil é real, tem história e atinge, principalmente, as religiões de matriz africana.” — Yann Krieger, Assistente Nacional de Diálogo Inter-religioso de Matriz Africana (Umbanda) nos Escoteiros do Brasil

Ao longo de seu desenvolvimento, o Movimento consolidou o entendimento de que não existe uma única forma legítima de vivenciar a espiritualidade. Por isso, não adota religião oficial, não estabelece hierarquias entre crenças e busca garantir que todas as pessoas se sintam acolhidas e representadas em todos os seus espaços educativos!

E muito desse avanço está relacionado às versões alternativas da Promessa Escoteira!

Regis Moreira Pinto — Assistente nacional de Diálogo Inter-religiosos de Matriz Africana (Candomblé) nos Escoteiros do Brasil e a 2ª pessoa do Brasil a colocar uma religião de matriz africana no Paxtu! — conta que antes dessa possibilidade foi apresentado à Instituição que havia muitos membros do Escotismo de outras religiões que acabavam não se sentindo contemplados na Promessa, e o Movimento os ouviu! Você pode ver a alternativa na Regra 004 do POR.  

“Acredito que a aprovação de um texto alternativo da Promessa Escoteira foi bastante agregadora! Agregadora porque trouxe a possibilidade das pessoas se identificarem […] que é primordial, estar dentro no sentido de pertencimento”  — Regis Moreira Pinto, assistente Nacional de Diálogo Inter-religioso de Matriz Africana (Candomblé) nos Escoteiros do Brasil

Inclusive, a partir disso que se abriram muitas oportunidades de capelania para diversas religiões (judaica, budista, matrizes afro, protestante, dentre outras) demonstrando o como algo aparentemente simples foi fundamental para aumentar a diversidade e o acolhimento de diversos credos no Movimento Escoteiro.

Com o tempo, provamos que o Escotismo está sempre em movimento e passou a compreender que espiritualidade não é uma religião específica, mas valores, ética, sentido e respeito à diversidade: qualquer credo (ou falta dele) que converse com o propósito e identidade Escoteira!

“A diversidade religiosa fortalece o Escotismo. Ela promove diálogo, empatia e forma cidadãos mais conscientes. Combater a intolerância religiosa é um compromisso diário: escutar, respeitar e viver a lei escoteira”  — Yann Krieger, Assistente Nacional de Diálogo Inter-religioso de Matriz Africana (Umbanda) nos Escoteiros do Brasil

Afinal, o Movimento Escoteiro educa para a cidadania e acolhe a todos!


BIBLIOGRAFIA:

Condecorações: a história de Caio Vianna Martins

Caio Vianna Martins nasceu em Matozinhos (MG), aproximadamente 50 km da capital Belo Horizonte, em 13 de julho de 1923. Seus pais eram o farmacêutico Raymundo da Silva Martins e Branca Vianna Martins, ele também tinha um irmão 2 anos mais velho, Jorge Vianna Martins. Uma família comum, humilde, tipicamente tradicional do interior. 🙂 

Com o passar dos anos, mudaram-se para Belo Horizonte e foi lá que a história de Caio com o Escotismo começou. E ninguém imaginava o grande símbolo que ele se tornaria para o Movimento!

Foto do site Memorial Caio Vianna

Caio ingressou na Associação Escoteira Afonso Arinos em 10 de setembro de 1937 e, menos de um ano depois, já atuava como Monitor da Patrulha Lobo, mérito de sua dedicação! O presidente da Associação, Dr. Edgard Renault Coelho, lembrava que ele também colaborava na administração, era ótimo acampador e um dos membros mais comprometidos da tropa. Um de seus companheiros e sobrevivente do acidente, o Lobinho Romero Oswaldo Loures Machado, relatou ainda que Caio era caridoso, sempre disposto a ajudar doentes e pessoas necessitadas ao longo de seus 15 anos de vida.

Entre os jovens da tropa, Caio sobressaía pela postura e dedicação: sempre pontual, sempre presente em todas as atividades, e sempre com o uniforme pronto (muitas vezes usado até por baixo das roupas da escola!). O entusiasmo que carregava deixava claro que o Escotismo era parte essencial da sua vida.

Agora você deve estar se perguntando: “Ué, mas com 15 anos ele não deveria ser Sênior?”

Bem, dentro da estrutura vigente em sua época, ele era escoteiro. Até 1938, o Escotismo no Brasil seguia apenas três ramos — Lobinho, Escoteiro e Pioneiro — como originalmente criados por Baden-Powell. Assim, jovens de 11 a 18 anos pertenciam todos ao Ramo Escoteiro. A divisão atual só surgiu na década de 1940, quando o chefe João Ribeiro dos Santos propôs a criação de um novo ramo para reduzir as diferenças físicas e intelectuais dentro do grupo, inspirado nos Senior Scouts dos EUA. A primeira Tropa Sênior brasileira foi oficialmente criada em 1945, 7 anos depois da morte de Caio.

No fim de 1937, os chefes anunciaram um momento especial: o interventor federal de São Paulo (cargo que atualmente seria similar ao Governador), Adhemar Pereira de Barros, convidou os escoteiros mineiros para um grande acampamento junto aos grupos de São Paulo em dezembro do próximo ano. 

Os jovens ficaram super animados e começaram os preparativos já no início de 1938, mobilizando a tropa para arrecadação de recursos para a compra de equipamentos e outras coisas necessárias para a viagem. A seleção dos participantes dessa viagem exigia destaque nas atividades do grupo, determinada a representar bem a Associação de Escoteiros Afonso Arinos: então, obviamente, Caio Vianna Martins já estava dentre os escolhidos! 

Quando chegou o tão aguardado 18 de dezembro de 1938, um domingo, os 24 selecionados se reuniram no Colégio: 3 voluntários adultos, 3 pioneiros, 12 escoteiros e 6 lobinhos, todos uniformizados de maneira impecável e com as mochilas cheias de equipamentos e expectativas! A estação ferroviária estava repleta com os familiares despedindo-se de seus jovens rumo à aventura em SP. Infelizmente, muitos se despediriam para sempre. 

Noturno Mineiro, Jornal O Malho, 1938 (disponível em: https://deianarede.blogspot.com/2012/06/acidentes-ferroviarios-em-santos.html)

A composição do trem noturno estava formada com 11 vagões, sendo o do meio, 1ª Classe, ocupado pelos escoteiros. A viagem se desenrolava normalmente até que às 2h05 da madrugada do dia 19 de dezembro, entre as pequenas estações de Sítio e João Aires, aconteceu o terrível acidente, quando se chocaram esse trem noturno que descia, com um trem cargueiro que subia. 

Houveram mais de 40 vítimas fatais — incluindo 2 membros do grupo escoteiro: o jovem Issa Satuf e o lobinho Hélio Marcos — e dezenas de feridos. Após o susto inicial, os passageiros que estavam conscientes e menos machucados começaram o resgate. O chefe escoteiro, Clairmont Orlando Gomes, percorreu os destroços buscando seus jovens e, ao encontrá-los, orientou que auxiliassem os sobreviventes como pudessem. 

Mesmo nessa situação extrema e enlutados pela perda dos amigos, os jovens mantiveram-se altruístas e fiéis à própria Lei Escoteira: “O escoteiro tem uma só palavra; sua honra vale mais que a própria vida. O escoteiro é alegre e sorri nas dificuldades”

Do vagão leito foram retirados colchões e cobertores, usados para abrigarem os sobreviventes. Alguns escoteiros trabalharam na confecção de macas com lençóis e paus, enquanto os demais, com as tábuas que foram retiradas dos vagões, fizeram uma fogueira para iluminar o local, facilitando o trabalho de salvamento.

Os primeiros socorros chegaram somente às 7h da manhã (cinco horas após o acidente). Os passageiros feridos, inclusive alguns escoteiros, foram transportados para Barbacena.

Caio Vianna Martins tinha sofrido uma forte pancada na colisão, na região lombar, sofrendo hemorragia interna. Durante o resgate, um enfermeiro percebeu o estado do escoteiro e ofereceu uma maca para levá-lo ao hospital. Caio recusou prontamente ao notar que haviam pessoas em situação ainda mais grave: 

“Não! Há muitos feridos aí. Deixe-me que irei só. O Escoteiro caminha com as próprias pernas”.

“Escoteiros de Affonso Arinos, vítimas do desastre, já recolhidos a Santa Casa de Barbacena. Dois deles ficaram esmagados entre as ferragens do Noturno Mineiro” Na verdade estavam no 9º Batalhão de Polícia. Reprodução: Jornal “A Noite” de 20 de dezembro de 1939.

Os escoteiros machucados foram levados ao 9º Batalhão de Polícia, pois sabiam que todos os hospitais da região já estavam cheios, enquanto Caio e os que ainda podiam andar seguiram a pé até Barbacena, percorrendo cerca de 20 km.  Porém, esse gesto altruísta e honroso teve um preço… Ao chegar na cidade, foram a um hotel, onde o corpo de Caio cedeu à exaustão; ele começou a expelir sangue pela boca e desmaiou, sendo levado imediatamente para o Hospital Santa Casa.

Lá ele foi internado em estado grave, devido à perda de sangue. Ele não falava, mas parecia tranquilo, especialmente ao lado de seus pais que chegaram horas depois para acompanhar seu tratamento. Apesar de todos os esforços dos médicos, Caio Vianna Martins faleceu na madrugada do dia 20 de dezembro de 1938 (um dia após o acidente), ao lado de sua família; a causa do óbito foi registrada como “Traumatismo da cavidade abdominal, derrame interno.”

O acidente da Mantiqueira é considerado uma das maiores tragédias ferroviárias do país naquele período, lotando não só hospitais, como também quartéis, delegacias e outros locais que pudessem ser usados para tratar os feridos. Para se ter noção da tragédia, precisaram mobilizar operários nas ruas para produzir caixões, pois os 32 caixões disponíveis já haviam sido reservados.

“Confecção dos caixões nas ruas de Barbacena” Reprodução: Jornal “A Noite” de 20 de dezembro de 1939.

As ações de Caio poderiam ter passado despercebidas em meio ao caos, mas o relato dos sobreviventes e das equipes de resgate mudou tudo: todos ficaram impressionados com aquele menino que mesmo ferido, ajudava quem podia e tinha uma postura de liderança. Esses depoimentos rapidamente chegaram à imprensa, e, em um Brasil às vésperas da 2ª Guerra Mundial, sua coragem ganhou ainda mais destaque. Em pouco tempo, Caio passou a ser visto como o “escoteiro padrão”, um símbolo nacional de altruísmo e bravura.

A família Vianna Martins, apesar da dor do luto, ficaram orgulhosos pelos feitos de Caio; muitos dos sobreviventes foram pessoalmente agradecer os pais pelas atitudes que o jovem teve diante daquele desastre. E essa gratidão se estendeu em diversas outras homenagens post mortem, que podem ser vistas no site Memorial Caio Vianna Martins.   

O Painel da Inconfidência Mineira e o Livro de Aço ao centro do Salão Negro. Foto: Centro Cultural Três Poderes.

Porém, o maior reconhecimento foi em 17 de setembro de 2012, quando seu nome foi inserido no “Livro de Aço”, também conhecido como Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. A partir daquele momento, o jovem tornou-se oficialmente um herói nacional. Atualmente, o Livro conta com apenas 50 nomes e está no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, um memorial cívico destinado à pessoas que marcaram e engrandeceram a história e a nação brasileira.

Seu breve, mas poderoso legado, foi eternizado em todo o Brasil com monumentos, placas, e até estádio de futebol. Mas também está vivo em todo aquele que se presta a salvar vidas com bravura.

No Movimento Escoteiro sua história segue como exemplo a todo jovem, e é por isso que em 2011 os Escoteiros do Brasil renomearam a medalha — criada ainda na década de 1920 e conhecida ao longo do tempo como Medalha de Salvamento de Vida, Cruz de Valor e Medalha de Valor — para Medalha Cruz de Valor Caio Vianna Martins.

O que é a Medalha Cruz de Valor Caio Vianna Martins e quem pode recebê-la?

Para reconhecer e agradecer os serviços prestados ao Escotismo, os Escoteiros do Brasil estruturaram um sistema de reconhecimento composto por três categorias principais:

  • Elogios: Sempre feitos por escrito, servem para expressar gratidão por ações ou apoios significativos, mas que ainda não justificariam a concessão de um Diploma de Mérito ou de uma condecoração.
  • Diplomas de Mérito: Destinados a pessoas ou entidades que prestaram serviços relevantes ao Movimento Escoteiro, como apoio a grandes eventos, doações ou cessão de instalações. Geralmente, são concedidos àqueles que já receberam Elogios Escritos, como forma de reconhecimento e incentivo. Existem três tipos: Local, Regional e Nacional.
  • Condecorações: Representam a mais alta forma de apreço e gratidão do Escotismo. São destinadas a indivíduos ou entidades que demonstraram dedicação excepcional, coragem e altruísmo em ações notáveis. Essas honrarias buscam preservar a memória de feitos extraordinários com imparcialidade e rigor.

Dentro desse sistema de reconhecimento, a Medalha Cruz de Valor Caio Vianna Martins é uma condecoração exclusiva para qualquer associado do Movimento Escoteiro, jovens ou adultos, por ações de valor, salvamentos e outros atos que demonstrem coragem e heroísmo

Essa condecoração pode ser concedida mais de uma vez à mesma pessoa, permitindo o uso simultâneo de todas as condecorações recebidas.

Se há um caminho a ser trilhado, que seja o da coragem e do compromisso! Ao receber essa medalha, o jovem escoteiro mantém vivo o legado de alguém que colocou outras vidas antes da sua, atuou com bravura em meio ao caos e segue inspirando gerações. 

Quer saber como conquistar a sua?

Confira todos os detalhes no Manual de Reconhecimento e Condecoração!


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Dia da Consciência Negra: história e Escotismo! 

O Dia da Consciência Negra é celebrado em 20 de novembro, homenageando Zumbi dos Palmares, o líder do Quilombo dos Palmares, e marca a luta contra a escravidão e o racismo. Porém, o feriado nacional só foi decretado em 2023 (e trouxe várias polêmicas na época!); por mais que muitos pensem que essa data não vai mudar nada ou sequer trazer questionamentos, é aqui que iremos atuar como agentes de mudanças e mostrar que o racismo estrutural na sociedade brasileira ainda é (infelizmente) mais presente do que imaginamos.

Todo escoteiro de carteirinha sabe que o Escotismo chegou ao Brasil em 1910, junto com a Marinha, um período marcado por tensões que envolviam tanto a instituição militar quanto a questão racial no país. Mas o que pouca gente imagina é que, naquele mesmo ano, essa diferença no tratamento entre negros e brancos desencadeou uma revolta dentro da própria Marinha.

A Revolta da Chibata ocorreu no dia 22 de novembro de 1910, tendo como estopim a punição brutal de 250 chibatadas aplicada ao marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes, por ter brigado com um cabo da Marinha. A revolta começou na madrugada de 22 de novembro, quando marinheiros do encouraçado Minas Gerais tomaram o controle da embarcação para exigir o fim dos castigos físicos, melhores condições de vida e trabalho e anistia para quem participou da ação. Esse motim também denunciou os maus-tratos, o tratamento desigual e a falta de acesso a patentes para pessoas negras na Marinha, algo visto à época como um resquício da escravidão.

E segundo Robson Moraes — historiador e escotista do grupo Quarupe 241°/SP — esse navio é o mesmo que vai para a Inglaterra e importa o Escotismo para nossas terras tupiniquins!

Os responsáveis por esse navio, os suboficiais Amélio de Azevedo Marques e José Affonso Severino Drumond (ambos negros!) foram dois dos introdutores do Escotismo no Brasil em 1910!

Fotos do livro “Escoteiros do Brasil: 100 anos da UEB”, de Antonio Boulanger (2004)

A questão é que o Escotismo que chega aqui é diferente do que foi proposto lá… 

Foto pelo site do Poder Naval

“Primeiro ponto: o Escotismo chegou ao Brasil já um pouco distorcido. Quando Baden-Powell pensou no modelo educativo, dialogou com grupos como a Boys Brigade, na Inglaterra, e com associações juvenis da França para criar uma proposta atraente e menos rígida. Mas, ao chegar ao continente americano, especialmente no sul, a ideia difundida foi apenas a de que o movimento nasceu de um militar inglês.

E não criado por um militar inglês que queria uma ruptura com os modelos tradicionais existentes e rígidos, principalmente pensando na educação inglesa, né? Nos textos de Baden-Powell ele fala sobre a importância do vigor físico; mas ele fala também da importância da alegria, da autorregulação… Coisa que não se falava à época! E então ele já propunha essa ruptura. Ruptura que não chega aqui. Pelo contrário, só chega a primeira parte da frase, né? Baden-Powell, um ex-militar inglês.” — Robson Moraes

Além disso, tanto Robson, quanto Aldenise Cordeiro — historiadora e dirigente, também participante da patrulha jaguatirica, formada por pesquisadores do movimento escoteiro — contextualizam que apesar das coincidências históricas, o Escotismo não foi afetado diretamente. Nessa virada do século XIX para o XX há muita influência do positivismo e do liberalismo, compartilhando muitos valores com o Movimento Escoteiro: fraternidade, sentimento de universalidade, ordem, disciplina e preparo da juventude para realizar progresso.

Aldenise também pontua diferenças que o Movimento teve ao se espalhar pelo território brasileiro. De acordo com uma de suas fontes de pesquisas, Jorge Carvalho, desenvolveu-se duas grandes correntes de Escotismo: uma mais pedagógica e outra mais militarizada, especialmente no Sul e no Sudeste.

Apesar de visar uma abertura dentro da educação formal, acabava limitada apenas a quem tinha acesso a essa educação; nessa época, uma minoria branca, com posses e influência. Assim, nem a educação, nem o Escotismo e muitas outras oportunidades chegavam para a periferia social, formada majoritariamente por pessoas negras e pobres que ainda sofriam com o estigma da escravidão e com as tentativas de criminalização de suas ações. 

Infelizmente, essa herança se estende até hoje, com o que é chamado de “racismo estrutural”: quando esse passado escravagista organiza o modo como a sociedade funciona hoje em dia, mesmo que inconscientemente. Em países como o Brasil, isso faz com que pessoas negras sejam empurradas para posições subalternas (ou que não evoluam para cargos de liderança), sofram mais com pobreza, menos oportunidades e violência policial.

E essa estrutura é tão normalizada que acaba adentrando em todos os lugares, até mesmo no Movimento Escoteiro. Uma prova disso é um depoimento da escotista Zéu Gonçalves, que conta que em 1998 vivenciou duas situações de discriminação racial: durante uma viagem nos Estados Unidos, após um Jamboree na Guatemala, um chefe escoteiro local criou situações constrangedoras para os jovens negros ali presentes. Já a outra, foi quando seu grupo foi convidado para atividades turísticas e acampamentos no Rio Grande do Sul, porém impedidos de participar de um evento tradicional gaúcho devido à cor da pele; mesmo que o grupo escoteiro anfitrião não tivesse controle disso, ela conta que foi uma grande decepção.

“Mas aí caiu a ficha de que também no Movimento existe racismo, né? Uma das coisas que eu percebi ao longo desses anos é que a gente pouco se via, por exemplo, nas imagens das nossas literaturas, né? Pouco se via lobinhos, lobinhas negras sendo representados na nossa literatura.”

Atualmente, os Escoteiros do Brasil têm ações para reduzir essas lacunas sociais através de isenções e implementação de políticas de diversidade e inclusão, além dos Espaços Seguros e maior representatividade e pluralidade nos materiais institucionais. Mas sempre é possível ir além! Refletir sobre nossa história, valores, trajetórias individuais e coletivas é indispensável para manter o Escotismo em movimento! 

Pensando nisso, nessa data tão importante, viemos homenagear pessoas negras que diariamente contribuem (ou contribuíram) para a continuidade do legado de Baden-Powell, para que o Escotismo continue formando jovens para um futuro melhor!

Thaís Carvalho Sobreira — Profissional Escoteira da região de Minas Gerais, Diretora financeira no 55ºGE João XXIII, Juiz de Fora–MG: Sua trajetória no Escotismo iniciou-se em 2004, inspirada pelo exemplo do irmão (mesmo que relutante na época!). Conquistou todas as insígnias de interesse especial de cada ramo: Cruzeiro do Sul, Lis de Ouro, Escoteiro da Pátria e Insígnia de BP. cada uma delas representando muito esforço e aprendizado e, em suas próprias palavras: “acima de tudo, orgulho de ocupar um lugar que nem sempre foi pensado para meninas negras tímidas — mas que hoje é também meu, e de tantos outros que vieram e virão.”

Hoje, o que a impulsiona é manter essa referência viva: acolher, servir, inspirar e afirmar que sua cor, sua história e sua voz têm lugar na construção do Escotismo. Thaís afirma com convicção que “Representatividade importa. Quando jovens negros veem lideranças negras, eles entendem que podem conquistar e inspirar também. O Escotismo é um movimento de oportunidades, mas elas só se tornam reais quando todos se sentem pertencentes.”

José dos Santos Marques — Conhecido pelo vulgo “Zé Lamparina”, participou da Revolução de 1932 como mensageiro e guia de tropas, estava presente no bombardeio da estação onde morreu Aldo Fiorato. Além disso, atuou na FEPASA, onde ajudou a montar a última locomotiva do país. O apelido veio de um personagem da revista Tico-Tico e se reforçou porque ele produzia lamparinas para financiar o Grupo Mogiana.

Iniciou no escotismo em 1929, na associação de escoteiros católicos Nossa Senhora da Conceição, em Campinas, e destacou-se pela liderança. Fundou o Grupo Ubirajara, chefiou a tropa entre 1938 e 1942 e dirigiu o antigo Grupo Escoteiro Mogiana de 1942 a 1972. Em 1972, assumiu o Grupo Escoteiros Craós, a convite do Círculo Militar de Campinas.

Foram mais de 80 anos dedicados ao escotismo, deixando um legado que segue formando jovens com foco em cidadania, patriotismo e respeito à natureza.

Entre as condecorações recebidas estão a Medalha MMDC (1962), Cruz de São Jorge (1982), Cruz de Valor (1982), Velho Lobo (2005), Mario Covas (2008), Gratidão Ouro (2009), Gratidão MMDC (2012) e Comenda Tiradentes (2013). Além disso, era tão querido pelas crianças e adultos que ganhou uma música interpretada em 2015 pelo Grupo Craós. Zé Lamparina faleceu em 2016, às vésperas de completar 101 anos.

Gene Nelson Lima Carvalho — Chefe da Tropa Sênior, do 20° Grupo Escoteiro José Ribamar, São Luís–MA:

Iniciou sua trajetória no Escotismo em março de 1974, como  Escoteiro do Mar, onde encontrou o valor da amizade, sem distinção de raça, cor e credo! Conta que dentre seus maiores desafios foram quando era pioneiro e precisou assumir a assistência da Tropa Escoteira, como Chefe de Grupo no 1° Grupo Escoteiro Yanomami, mas o maior sendo quando precisou resgatar um jovem que caiu em um poço com fogo! Conduziu tudo com calma e técnica, e o resgate foi um sucesso!. Ao entregar o rapaz aos pais, ouviu um agradecimento que marcou sua trajetória e reforçou o valor do seu voluntariado.

Diz que sua maior conquista no Movimento Escoteiro foi ver jovens que orientou crescerem com os princípios do Escotismo. Sobre representatividade, afirma ser respeitado e reconhecido como uma liderança negra que contribui para o Movimento no Maranhão. Hoje, o que o move é seguir participando ativamente do Escotismo, a escola que escolheu para a vida.

Zéu Gonçalves — Akelá e Diretora de Patrimônio do 33º Grupo Escoteiro Cardeal da Silva, Salvador-BA: 

Sua trajetória no Escotismo começou em 1985, quando tinha 15 anos, porém, seu registro não existe! Na época o seu grupo ainda não aceitava meninas, mas permitiram (informalmente) que ela apoiasse como Balú na Alcateia. Isso mudou quando ela completou 18 anos, em 1988/1989, quando formaram o clã de Pioneiros e conseguiu finalmente o seu registro escoteiro!  Ela diz que “O Escotismo é um Movimento que me trouxe e me traz muitas alegrias, que transformaram minha vida!”

Desde amizades para a vida, quanto viagens pelos mais diversos lugares e oportunidades profissionais, ela conta que seu slogan é “o Escotismo é minha opção de vida”, por conta disso, começou a lutar mais pela representatividade negra dentro do Movimento, tanto em sua região, quanto no resto do Brasil! Ela diz que o que a move é ver o resultado do Escotismo em quem já foi seu lobinho, em suas próprias palavras: “isso só transforma mesmo em alegria, porque é muito bacana você ver uma criança crescer, se desenvolver e hoje está aí, fazendo do nosso mundo um mundo melhor!”

Agradecemos a todos os muitos outros nomes que durante todos esses anos ajudaram a construir a história dessa instituição de do Movimento Escoteiro no nosso país.

Que essas vozes inspirem novas trajetórias e reforcem um Escotismo (e uma realidade!) que celebre a diversidade entre nós!


BIBLIOGRAFIA:

ESPECIAL HALLOWEEN: 5 histórias de acampamento que vão te dar arrepios (e vontade de ir acampar mesmo assim!)

O mês do Halloween é tradicionalmente marcado por histórias de fantasmas, duendes e bruxas vindas de culturas estrangeiras, de origem celta (se quiser saber mais sobre isso, procure sobre Samhain) mas popularizado pelos filmes e séries estadunidenses, a data foi adotada mundialmente como um dia para aproveitar e compartilhar a curiosidade que temos sobre o sobrenatural e o desconhecido! 

Enquanto uns preferem maratonar filmes de terror, outros vivem suas próprias histórias assustadoras no meio de acampamentos! Entre barulhos na mata, vultos e sustos que acabam em gargalhada, reunimos 5 “causos” que prometem dar frio na espinha e vontade de montar barraca mesmo assim!

Todas essas histórias vieram através dos comentários do post de Halloween, lá no nosso Instagram! Segue lá a gente para não perder nenhuma novidade!

#1. “Quando eu estava no Ramo Escoteiro, fizemos um acampamento em um lugar diferente: dentro de um cemitério. Durante a madrugada, enquanto cuidávamos da fogueira, de repente vimos uma criança chorando, agachada atrás de uma pilastra. Decidimos ir atrás para ver o que era, mas quando chegamos lá… não havia ninguém.” — relato do Pedro Castilho | @pedro.castilhoo_

Depois dessa, imaginamos que o pessoal voltou para a barraca assim:

#2. “Era um acampamento que começou às quatro da madrugada. Fui sozinha buscar madeira quando ouvi algo que parecia o choro de uma criança. Olhei para trás e não vi nada. O som foi se aproximando cada vez mais, e, quando olhei novamente, percebi que era um cachorro me seguindo. Depois de pegar os bambus, montei minha barraca. No outro dia, na hora do almoço, fui pegar a minha máquina de comer e, ao abrir a mochila, ela estava cheia de sangue. Até hoje ninguém sabe o que aconteceu — só sei que, depois disso, fiquei muito mal.” relato da Valentina | @valentina_.c2012 

Seria esse o nosso caso de lobisomem? Não sei… Mas provavelmente não iria acampar tão cedo depois dessa!

#3. “Era uma noite escura e silenciosa no acampamento escoteiro. Os jovens escoteiros estavam todos dormindo em suas barracas, cansados após um longo dia de atividades ao ar livre. De repente, um dos escoteiros, chamado João, acordou no meio da noite com uma sensação estranha, como se alguém estivesse o observando. 

João tentou ignorar a sensação e voltou a dormir, mas logo ouviu um barulho estranho vindo da floresta. Era um som de passos, como se alguém estivesse se aproximando da barraca. Ele sentou-se e olhou em volta, mas não viu nada.

De repente, a barraca começou a sacudir e a luz da lua entrou pela abertura, iluminando o rosto de João. Do lado de fora, uma figura alta e magra o observava com olhos completamente brancos e vazios.

João gritou e acordou todos os outros escoteiros. Eles saíram correndo da barraca e foram procurar ajuda, mas quando voltaram com os monitores, a figura havia desaparecido. Ninguém nunca descobriu quem ou o que era aquela figura, mas ninguém mais teve coragem de dormir naquela barraca.” — relato de Ju Alves | @juju_alvesx_

Seria essa coisa um fantasma ou um ET? Bem… A única certeza que temos é que depois disso ninguém conseguiu dormir nesse acampamento!

#4. “Um verdadeiro acampamento “raiz”, com direito a uma visitante nada esperada: uma onça! Hoje a gente ri, mas no dia… Foi horripilante! Realizamos o Acampamento Distrital “DESPONTAR”, estávamos com o fogo aceso — no aprendizado e nas técnicas escoteiras de sobrevivência — e uma programação maravilhosa… Mas eis que a DONA ONÇA resolver fazer uma visita surpresa! Entre o susto, a curiosidade e o medo, tivemos que mudar de planos.” — relato da Mírian Cruzeiro | @miriancruzeiro 

Apesar do espanto, essa história nos lembra de uma lição importante: na natureza, quem manda é ela! Nós que nos adaptamos! 

#5. “Fomos buscar bambu à noite — devia ser por volta das 21h — e estava completamente escuro. Cortamos os bambus, eu e meu amigo, deixamos no chão e resolvemos explorar uns banheiros abandonados no meio do mato (já estávamos morrendo de medo até aí). O vento soprava forte entre os bambus, fazendo um som assustador.

Quando decidimos voltar para o acampamento, pegamos os bambus em dupla. Quanto mais andávamos, mais barulho fazia — algo como um bicho arrastando no chão. A gente andou um pouco… parou. Andamos de novo… e parou.

De repente, olhamos para o lado e vimos dois olhos brilhantes nos encarando de longe. Ficamos paralisados — até perceber que era apenas um cavalo.

Até aí tudo bem. Rimos de nervoso, mas seguimos o caminho. O acampamento era longe, então continuamos. E o som não parava. Até que o medo falou mais alto: saímos correndo desesperados, gritando! Eu quase chorando, e meu amigo gritando “CORRE, PIETRAAAA!” — e eu só conseguia responder “AAAAAA!”.

Quando finalmente paramos de correr, exaustos e quase morrendo, percebemos que o barulho tinha parado também. Foi então que descobrimos o mistério: o som acontecia toda vez que a gente andava porque eram as pontas dos bambus, que não tínhamos limpado, arrastando na grama. Depois disso, o susto virou gargalhada!” — relato da Pietra Borges Kickhöfel | @pie_torta 

E aí? Você teria coragem de acampar durante o Halloween depois de ter lido essas experiências?

Essa seleção de histórias com certeza mostra algumas, dentre tantas, aventuras que você vive como escoteiro! Venha viver elas com a gente! 

Outubro Rosa: histórias de superação dentro do Escotismo

O Outubro Rosa é um movimento internacional de conscientização para a prevenção e combate do câncer de mama, criado no início da década de 1990 pela Fundação Susan G. Komen for the Cure, e popularizou-se em todo mundo em meados dos anos 2000. Em 2013, a discussão sobre prevenção foi inflamado pela decisão da atriz Angelina Jolie de realizar uma dupla mastectomia preventiva, devido a uma mutação genética e histórico familiar (ela perdeu a mãe, a tia e a avó para a doença), que em seu caso, aumentava em 87% o risco de câncer de mama. 

Apesar do alvoroço midiático, a história de Angelina é mais comum do que se pensa: outras famosas como Patricia Pillar, Elba Ramalho, Jane Fonda e Brigitte Bardot também foram diagnosticadas com a doença. No Escotismo, conhecemos mulheres que trilharam caminhos parecidos. 

E não é para menos! De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o tipo de câncer mais comum (e mais letal) entre as mulheres no Brasil; a taxa de incidência é de aproximadamente 66 casos para cada 100 mil mulheres

Neste Outubro Rosa, celebramos mulheres do Escotismo que enfrentaram o câncer de mama e seguem sendo exemplo vivo de coragem e inspiração: Adriana Florencio (PE), Megumi Tokudome (PR), Paula Helena Silveira Mees (SC) e Simone Ferreira (PR).

Elas gentilmente cederam entrevista aos Escoteiros do Brasil para compartilhar suas histórias de superação! Mas vamos começar do começo…

Como começou a suspeita? Entendemos que com a rotina e correria, muitas de nós até esquecemos de marcar exames e fazer o autoexame, o que fez com que você pensasse “ok, agora é hora de ir a um médico”?

A resposta de todas variou bastante, mas possuem um componente em comum: os exames preventivos no momento certo!

A Adriana disse que ela já fazia os exames preventivos todos os anos, mesmo sendo nova — com 35 anos —  devido às suas duas gestações. Ela conta que resolveu ir ao médico após um ocorrido: “E, certo dia, eu estava conversando com a mamãe, no portão da casa dela, e eu senti uma forte fisgada na mama. No mesmo momento que eu passei a mão, […] no local que deu essa fisgada, eu senti um carocinho […]” — como já estava na hora de renovar os exames, foi ao médico e relatou esse ocorrido; a médica passou uma ultrassonografia, mas o resultado do exame não foi positivo. 

Já no caso de Megumi, o diagnóstico veio com um alerta do médico de que seus exames estavam atrasados; o ano era 2022 e ela achava que tinha feito em 2019, mas, na verdade, tinha sido 2017! 

Tanto no caso da Simone quanto da Paula, o incômodo veio com um carocinho bastante incômodo… Mas Paula teve que passar pelo processo de descobrir o diagnóstico 2 vezes!

Simone: “Venho de uma família que tem um alto índice de câncer. Sou a sétima em minha família. Sempre tive um nódulo na mama esquerda em que às vezes me incomodava, inchava, avermelhava e doía.”   Em 2016, conta que procurou um médico por causa desse nódulo, que acabou sendo benigno. Em 2020, na pandemia, voltou a incomodar e agora acompanhado com uma íngua dolorida embaixo do braço. Quando os atendimentos normalizaram, fez mamografia e o médico percebeu que era maligno e explicou o que precisava fazer. 

Paula tinha 33 anos quando notou um caroço na mama, durante seu autoexame. Procurou um médico pelo SUS para fazer exames e, após resultados, o médico pediu uma biópsia que confirmou o câncer. Na 2ª vez, quase 15 anos depois, ela notou uma íngua na axila esquerda, do mesmo lado da cirurgia anterior (uma quadrantectomia, onde eles tiram apenas um quadrante, pois o tumor era pequeno, tava encapsulado e não tava se expandindo) e apesar do incômodo, o médico deu medicações após os resultados dos exames, por ser considerada pequena… Após um dia em que coçou a área do mamilo e sangrou muito, ela já foi ao posto de saúde, teve os encaminhamentos necessários, realizou os exames e recebeu a notícia que era (novamente) o câncer de mama. 

Você lembra como foi o momento em que recebeu o diagnóstico? E quais foram seus primeiros pensamentos ou medos naquele momento?

O sentimento é o mesmo: medo. Medo do desconhecido, do que o futuro aguarda, medo da morte. 

Megumi ainda teve o acréscimo da culpa, mas não por muito tempo:

“Meu mastologista me esclareceu, dizendo que, na verdade, eu tinha tido muita sorte, porque do jeito que esse meu tipo de câncer é agressivo, provavelmente se eu tivesse feito a mamografia no final do ano, em dezembro de 2021, ela teria dado negativo, não teria aparecido nada. Então, eu tinha feito, na verdade, na época correta.” 

Depois dessa notícia, ela conta que sentiu como se uma luz se abrisse. O câncer surgiu quando estava preparada: mais madura, cercada pela família, com um marido companheiro, duas filhas, plano de saúde e um trabalho estável para enfrentar o processo com calma.

Paula conta que a sensação que “tinha era de que eu fiz uma prova na escola que eu não tinha estudado, então, sabia que o resultado não seria muito bom porque […] minha consciência já dizia que podia ser um câncer. […] E na 2ª vez que eu recebi o diagnóstico mesmo, lembro que eu desci as escadas do consultório da médica e aí foi um baque mais difícil, porque a gente pensa ‘poxa, rodar nessa matéria e ter que fazer tudo de novo’… Sentei na escada e chorei muito sozinha […]”

Porém, todas unanimemente disseram que o mais importante no momento é manter a calma. Segundo Simone, “a partir do momento que você organiza sua cabeça e entende que será necessário passar pela situação tudo muda. Tudo fica mais leve.” 

Principalmente tratando do tratamento. Todos os tratamentos para câncer — quimioterapia, radioterapia, imunoterapia e intervenções cirúrgicas — são altamente invasivos. Mas durante as entrevistas, nota-se que há dois pontos que ligam as suas experiências: o apoio da família e a questão do cabelo. 

Elas enfatizaram muito o apoio dos amigos e familiares durante o tratamento, que essa rede de apoio foi crucial para enfrentar as dificuldades e, principalmente, o maior motivo que fez com que elas mantivessem o foco e a esperança para superar a doença. Mas além disso, essa rede é uma das partes mais importantes especialmente quando falamos sobre cuidado e autoestima. 

Quando perguntamos qual foi o momento que mais as marcou durante esse período de tratamento, Simone respondeu que “O que mais me marcou foi perder o cabelo e entender que perder o cabelo é a fase mais bonita… é o renascimento, uma nova história, uma nova rotina e a chance é continuar vivendo, mas olhando a vida de uma forma diferente.”

Já Megumi compartilhou um momento muito especial que teve em família:

“Como eu sempre tive cabelo longo, e eu sabia que já ia cair logo após a primeira aplicação, então eu preferi cortar o cabelo mais curto, tipo Joãozinho… para que o impacto fosse menor para mim e para quem convivia comigo […] 

Quando eu senti que estava caindo, e já ia começar a cair mesmo, eu pedi para o meu marido raspar meu cabelo, que eu não queria ver aquelas cenas de tufos caindo durante o banho ou no dia a dia. Então, quando eu fui tomar banho, as meninas ficaram aqui no quarto e elas perguntaram para o meu marido por que é que a mamãe estava demorando tanto no banho, e o meu marido comentou que […] o cabelo da mamãe estava caindo e que ele iria estar ajudando raspar.

Elas ficaram aguardando do lado de fora e elas queriam ver como é que eu estava. Quando eu saí do banheiro de cabelo raspado, elas olharam, ficaram quietas por um instante, olhando para mim… Falei: ‘e aí, quem é que vai me ajudar a escolher um lenço bem bonito para ver como é que a mamãe fica?’ 

E a partir daquele momento, abriu-se um sorriso na cara delas, no rostinho delas, e peguei os meus lenços coloridos e comecei a testar já algumas formas que eu já tinha visto alguns tutoriais, e elas começaram a me ajudar a escolher lenços que são super coloridos, floridos para colocar, e elas se divertiram, coloquei nelas, e elas iam escolhendo a ordem dos lenços para testar, e isso foi assim um momento nosso […] A partir do momento que eu lidasse com maior simplicidade possível essa doença, elas também lidariam com a maior naturalidade e simplicidade possível.”

No caso de Paula, o que mais abalou sua autoestima foi a notícia de que não conseguiria reconstruir os seios, mesmo indo em 3 especialistas diferentes. Mas a cura veio de quem mais estava ao seu lado: o companheiro.  

“Eu voltei da última consulta meio revoltada ainda, porque é difícil essa cirurgia. E ele me abraçou, me botou no colo dele e disse para mim: 

‘Tu sabe que para mim não importa, eu te amo. Tu podia não ter uma mão, eu ia te amar igual. Tu podia não ter um braço, eu ia te amar igual. Tu podia não ter um pé, uma perna, eu ia te amar igual. Tu não tem uma mama, eu te amo igual.’.”

Mas nem tudo são flores… Durante as entrevistas, chamou atenção o impacto do câncer na vivência familiar. Adriana contou para nós que o filho sofreu preconceito na escola e reagiu a uma ofensa sobre sua aparência durante o tratamento; o filho relatou que, para xingá-lo, o seu colega disse “tua mãe é aquela gorda cancerígena”. A partir disso, ambas mães foram chamadas no colégio para falar sobre o ocorrido. “O que mais me surpreendeu nesse redor é a falta de mães, pais, explicarem para os filhos como é e o que é o câncer, como é que as pessoas têm que ser respeitadas, tratadas…”

A filha de Megumi falou sobre o receio do bullying, o que levou Megumi a buscar apoio na escola para evitar situações de constrangimento entre os colegas. Já Paula relatou que, apesar da boa intenção, a professora da filha pedia que a turma rezasse por ela, o que causava sofrimento: “Às vezes, um gesto bem-intencionado pode traumatizar mais a criança do que ajudar.”

Dentre tantos relatos e detalhes, perguntamos como o Escotismo participou na história delas durante esse período, e é interessante perceber o como atuou de maneira positiva nessas vivências diferentes!

A Adriana e Paula contam que ainda não eram parte do Escotismo na época, mas foram muito acolhidas por todos. Inclusive, Paula disse que entrar para os Escoteiros foi a realização de um sonho! —  “Porque quando eu era pequena, quando eu era menina, mocinha, eu queria fazer parte do grupo escoteiro. Pensa, eu tenho 53 anos, né? Mas a minha mãe dizia que isso era uma coisa de menino, que isso não era coisa de menina, que isso não era para mim…”

Simone conta que por conta da pandemia, não teve tanto contato com seu grupo, mas que mesmo assim eles nunca deixaram de mandar mensagens de apoio e carinho; inclusive, em uma das raras visitas permitidas naquele período, recebeu uma orquídea de presente, que ela tem e cuida até hoje. 

Enquanto isso, Megumi conta de outro ponto de vista: 

“No grupo escoteiro, eu recebi um apoio gigante, assim, desde os membros da diretoria aos chefes escoteiros, mas principalmente porque eu estava com a minha filha mais velha entrando no ramo Lobinho. Então, durante o período introdutório dela, eu recebi a notícia da confirmação do meu diagnóstico e eu não sabia se eu precisaria fazer a cirurgia logo no começo ou se a cirurgia seria depois da aplicação de quimioterapia. 

Eu conversei com a chefia, com a chefe assessora da minha filha e com a Akelá principalmente e eles anteciparam a promessa escoteira da minha filha para que eu estivesse presente e isso foi muito, muito importante para mim, assim, poder estar presente nesse momento […] Então, foi muito especial esse momento, assim, eu estar lá — viva (risos) —, testemunhando aquele momento da minha filha, vendo ela sendo introduzida no escotismo, naquele ambiente. Então, o Grupo Escoteiro Santos Dumont, assim, tem um carinho enorme, uma gratidão enorme pela compreensão, apoio, suporte que eu recebi durante todo esse momento.”

Depois de contarem como o Escotismo foi um apoio importante durante o tratamento, elas também refletiram sobre o que fica dessa experiência. Perguntamos “Qual legado você gostaria de deixar para outras voluntárias e jovens que olham pra sua trajetória?” e para deixar uma mensagem a mulheres que possam estar passando pelo diagnóstico agora:

  • Adriana: Depois que eu superei o câncer, mudei a forma de ver tudo e todos, de querer viver intensamente, cada vez mais. Eu acho que até a humildade da gente aflora mais. Você sabe que sua vida não é nada, então você quer viver ela da melhor forma possível, porque você está aqui hoje e pode não estar amanhã. Você quer deixar lembranças boas. […]  Eu diria às mulheres que passam por esse processo: não desistam. O câncer não é impossível de ser curado, e conheço muitas pessoas que venceram… Mas o diagnóstico precoce faz toda a diferença, quanto mais tardio, mais prejudica o tratamento.
  • Megumi: Na Lei Escoteira, onde diz que “o escoteiro sorri nas dificuldades”, é fazer do limão a limonada […] Então esse é o grande legado que eu tirei de aprendizado, eu sempre fui uma pessoa muito rígida comigo mesma e essa doença veio e me ensinou que eu não tenho controle sobre tudo na minha vida […] então acho que a partir disso eu comecei a viver de forma mais leve. Acho que a mensagem que eu deixo para as pessoas que estão passando por esse mesmo desafio são as frases que realmente me ajudaram muito: “um dia ruim não faz a sua vida ruim” e “o câncer é só mais um capítulo da sua vida, não a sua vida”
  • Simone: Tudo passa, bem ou mal passa. Aceite o tratamento, pois sem dúvida vai ficar mais leve. […] Tenha força! Aproveite a vida. Não fique pesquisando nada em internet porque Google não tem filtro e nem CRM, confie em tua equipe de médico e acredite em Deus, no tratamento oncológico. Não estamos aqui a passeio e o que tiver que ser será! Não esqueça que diagnóstico de câncer não é sentença de morte. Apenas viva e viva intensamente.
  • Paula: Não sei se deixo um legado, mas gostaria que outros voluntários e jovens lembrassem de cuidar da própria saúde. Percebam qualquer mudança no corpo, quanto antes o diagnóstico, mais eficaz o tratamento, especialmente nos casos de câncer de mama. Mas eu gostaria de dizer para todas as mulheres que passam por isso agora: tenham calma. É como estar em um barco no meio da tempestade — é hora de recolher as velas e esperar passar. Aceitar faz parte do processo; metade do caminho está aí, a outra é o percurso. Depois, tudo renasce — o cabelo, a vontade, a força. Não é fácil, mas um dia de cada vez, você vence.

Suas respostas refletem o verdadeiro espírito do Escotismo: em constante evolução, adaptando-se às transformações ao mesmo tempo que mantém seus valores. Essas histórias têm tudo a ver com o nosso tema anual: “Escotismo em Movimento”. Por isso, para encerrar, perguntamos: o que te move hoje? 

Quer essa mesma camiseta para demonstrar seu apoio, com todo estilo que só a Loja Escoteira pode fornecer?

Veja a seguir um passo-a-passo de como realizar o autoexame, assim como alguns dos principais sintomas do câncer de mama:

Se você ficou com curiosidade de ouvir as histórias completas, pode acessá-las abaixo: 

História de Adriana

História de Megumi

História de Paula

História de Simone

Sempre Alerta! ⚜️

Top 5 experiências que todo jovem vive no Escotismo

O Escotismo é cheio de momentos únicos! Entre aventuras e aprendizados, cada jovem constrói lembranças (e amizades!) que ficam para a vida toda. Selecionamos aqui o Top 5 experiências que marcam essa jornada!

1. Explorar a natureza e acampar:

Baden-Powell já dizia que “O ar livre é o objetivo real do Escotismo e a chave para o seu sucesso.” A ideia de se aventurar junto com os amigos é o que atrai a maioria dos jovens para o Escotismo, porém, durante a vivência dentro do Movimento percebe-se que vai muito além disso. É especialmente nos acampamentos que o jovem aprende a conectar-se com a terra e a água, a controlar o fogo de sua fogueira e ter mais autonomia ao montar sua barraca e cozinhando sua própria comida mateira. No início, o que parece perrengue depois torna-se uma forma de terapia. Você aprende a achar paz no ar livre. 

2. Descobrir (e melhorar) a si mesmo:

No Escotismo, cada passo do Programa Educativo é pensado com intenção: formar pessoas empáticas, éticas e conscientes, sempre buscando crescer em valores; tudo isso na prática 🙂 

Além disso, você aprende e desenvolve habilidades inter e intrapessoais, afinal, o Escotismo é coletivo! Como as atividades são sempre em grupo, sempre terão divergências e às vezes as coisas não sairão do jeito esperado… Você aprende a se frustrar e lidar com esse sentimento, a liderar e a ser liderado, mas também — dentre várias outras coisas — aprende a solucionar problemas e trabalhar em equipe.

Inclusive, há relatos de que muitos descobrem a própria vocação por conta das atividades! Alguém que decidiu fazer engenharia florestal por conta da experiência nos escoteiros, ou veterinária por contato com animais em atividade, e até mesmo direito, graças a um júri simulado que despertou naquele escoteiro (agora escotista!) o interesse pela profissão.

3. Fazer amizades (muitas vezes, pelo mundo inteiro!):

O convívio com outros jovens da sua Unidade Escoteira inevitavelmente faz com que alguns vínculos evoluam para amizades. E algumas delas duram para a vida inteira! 

Uma das melhores formas de conhecer pessoas e fortalecer os vínculos que já fez é participando de grandes eventos escoteiros (seja regional, nacional ou internacional!), e quanto maior, melhor! São nessas experiências que aventuras são vividas intensamente e amizades distribuídas em cada parte do país ou do mundo. Ah, não esqueça do lenço com o Nó da Amizade, hein?

4. Encontrar propósito ao participar de ações de serviço à comunidade:

Uma das partes da Lei Escoteira é “O escoteiro está sempre alerta para ajudar o próximo e pratica diariamente uma boa ação”; muitas vezes isso pode parecer clichê e reforçar o estereótipo do escoteiro que ajuda senhorinhas a atravessar a rua, mas vai muito além disso.

Quando um jovem participa de sua primeira ação social uma “chavinha” gira e sua percepção muda. Seja em uma campanha de arrecadação, na revitalização de um espaço público ou no apoio a pessoas em situação de vulnerabilidade, jovens descobrem que servir não é apenas ajudar o outro, mas também dar sentido às próprias escolhas. É nesse momento que propósito e impacto se encontram, dando sentido à icônica frase de Baden-Powell: “A verdadeira felicidade só se conhece através do serviço ao próximo.”

5. A sensação única de receber um reconhecimento:

Elogios e reconhecimentos públicos são legais para todos, mas nada se compara à emoção de receber um Cruzeiro do Sul, uma Lis de Ouro, Escoteiros da Pátria, Insígnia de BP e especialmente uma das condecorações! Esses distintivos representam sua evolução dentro (e fora) do Movimento, e recebê-los é experimentar uma mistura de orgulho, alegria e surpresa difícil de descrever, afinal, torna-se palpável toda trajetória de dedicação que levou até ali! Esse momento torna-se um marco de vida, lembrado para sempre como símbolo de superação e pertencimento.

E você? Quantas dessas experiências já viveu?

Foto por Alexandre Araújo

O Escotismo é feito de momentos que inspiram, ensinam e transformam. Se ainda não fez parte dessa jornada, o convite está feito: venha se aventurar com a gente!

Setembro Amarelo: a conscientização e prevenção ao suicídio precisa ser construída desde a infância! 

Falar sobre morte, em geral, sempre foi tabu. Quando o assunto surge sempre vem seguido de: “mas tem que pensar no agora!”, “não fica pensando nisso”, “credo” e outras reações que podem ser mais ou menos passionais; a questão é que esse medo de abordar o assunto acaba fechando portas para discutirmos assuntos muito importantes relacionados à saúde mental e suicídio. Sabemos que é um assunto que não surge naturalmente, mas é preciso ir além do “está tudo bem mesmo?”. Felizmente, a Campanha Setembro Amarelo é uma oportunidade para isso!

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), todos os anos cerca de 800.000 pessoas tiram a sua própria vida — o que corresponde a um suicídio a cada 40 segundos pelo planeta. Isso sem contar as tentativas, se forem contabilizadas seriam mais 16 milhões, ou seja, a cada 1 suicídio consumado, outras 23 pessoas tentaram tirar a própria vida em algum lugar do mundo. O pior desses números é que eles são subnotificados; segundo a Veja, pesquisas recentes mostram que cerca de 30% de casos relacionados a tentativa ou consumação de suicídio não são contabilizados, podendo aumentar o número supracitado para quase 20 milhões.

A faixa etária entre 11 e 25 anos é uma das mais propensas, especialmente se estiverem enquadrados em alguma minoria étnica ou sexual. Segundo o Ministério da Saúde, “o suicídio é um fenômeno complexo, multifacetado e de múltiplas determinações, que pode afetar indivíduos de diferentes origens, classes sociais, idades, orientações sexuais e identidades de gênero”. Mas ele pode ser prevenido.

Muitos fatores podem estar relacionados ao risco de suicídio, como depressão e outras doenças psiquiátricas, mas também o peso desse jovem estar enfrentando alguma dificuldade — de problemas familiares, econômico-sociais até questões como (ciber)bullying, (ciber)stalking, sextorsão, dentre outros crimes digitais que se utilizam da vergonha da vítima para continuar tendo controle sobre ela, como ocorre nas “panelas do discord”

Como perceber os sinais?

Não existe uma fórmula exata para identificar quando alguém está passando por uma crise suicida ou se apresenta alguma tendência nesse sentido. Porém, pessoas em sofrimento tendem a apresentar sinais de alerta, especialmente quando vários aparecem ao mesmo tempo, e esses devem ser observados por familiares e pessoas próximas. Confira alguns a seguir:

  • Expressão de ideias ou de intenções suicidas – Fiquem atentos para os comentários do tipo! Pode parecer óbvio, mas muitas vezes são ignorados ou interpretados como “drama”: “Vou desaparecer”; “Vou deixar vocês em paz” “Eu queria poder dormir e nunca mais acordar”; “É inútil tentar fazer algo para mudar, eu só quero me matar”.
  • O aparecimento ou agravamento de problemas de conduta, ou de manifestações verbais durante pelo menos duas semanas.
  • Isolamento persistente, com afastamento de familiares, amigos e grupos sociais.
  • Sentimentos de falta de esperança.
  • Desinteresse, dificuldades ou prejuízos no desempenho e aprendizagem escolar.
  • Ansiedade, agitação, irritabilidade ou tristeza permanentes.
  • Alterações no sono e no apetite.
  • Desinteresse por atividades de que gostava e desapego de pertences que valorizava.
  • Baixa autoestima, com desinteresse e descuido com a aparência.
  • Comentários frequentes negativos em relação ao futuro e autodepreciativos.
  • Automutilação.

Como abordar o assunto?

Esse é o passo mais difícil, mas é possível deixá-lo mais leve! Ao invés de chegar diretamente no jovem abordando o tópico, que tal introduzir o assunto através de um filme? A Região de SP dos Escoteiros do Brasil fez essa matéria de como falar de Setembro Amarelo nas UELs e nela há uma lista com filmes que abordam saúde mental. Uma sessão cinema com pipoca pode ser um bom pontapé para começar essa conversa sem um clima pesado, veja aqui alguns:

  • Por Lugares Incríveis (2020): Mostra os impactos do luto na juventude e como buscar apoio para seguir em frente.
  • As Vantagens de Ser Invisível (2012): Aborda depressão, amizade e a importância de redes de apoio na adolescência.
  • Divertida Mente (2015): Ensina de forma leve a compreender e valorizar todas as emoções.
  • O Lado Bom da Vida (2012): Retrata a reconstrução da vida após uma crise e a relevância do tratamento.
  • O Mínimo Para Viver (2017): Apresenta os desafios de transtornos alimentares e caminhos para superação.
  • Up – Altas Aventuras (2009): Fala sobre resiliência diante do luto e a importância de recomeçar (e ainda tem um personagem escoteiro!).
  • Viva – A Vida é uma Festa (2018): Ajuda a tratar morte e luto de forma sensível e acolhedora.

Depois de “quebrar o gelo” lembre-se que conduzir a conversa com empatia é o principal, não tente buscar soluções ou justificativas superficiais. A “positividade tóxica” nesses discursos pode aumentar o sofrimento ou gerar culpa em quem escuta, além de quebrar a confiança para esse tipo de diálogo. Não incentive jovens a procurarem você para conversar se não se sentir preparado para acolher.

 Exemplos do que não dizer:

  • “Não cometa suicídio porque a vida é linda.”
  • “Aprenda a ser grato ao que você tem.”
  • “Tem tantas pessoas passando por situação pior que a sua…”
  • “Você está assim porque parou de ir à igreja.”
  • “Isso é falta de Deus no coração.”
  • “É falta do que fazer, mente vazia é oficina do diabo.”
  • “Você precisa pensar positivo.”
  • “Não fique assim! Você tem a vida toda pela frente!”
Foto por Gabriel Apolinário

Se não souber como ajudar, seja transparente. Você pode dizer sinceramente: “Não sei exatamente o que fazer ou dizer para te ajudar, mas você é importante para mim. Quero estar ao seu lado e buscar, junto com você, o apoio necessário para aliviar essa dor.”

O que você pode dizer para ajudar:

  • “Você não precisa passar por isso sozinho, estou aqui para te apoiar.”
  • “Estou aqui para te ouvir, se quiser falar sobre o que está acontecendo.”
  • “Conte comigo. Podemos encontrar juntos um profissional para te ajudar.”
  • “Você é uma pessoa maravilhosa, e eu acredito no seu potencial.”

Além disso, é importante ter um ponto de apoio com a família desse jovem, para indicar que é necessário mais atenção a ele — como conversas mais próximas e ações como remover do alcance os objetos que possam causar risco, como facas, tesouras, medicamentos e afins — e também para ajudar na busca de profissionais especializados. No Movimento Escoteiro, você pode buscar o auxílio pelo Espaços Seguros; assim, de forma multidisciplinar, pode junto com a família, com o jovem e os profissionais que estão o tratando, traçar estratégias para o manejo de crises caso elas venham a acontecer. 

No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece atendimento gratuito e sigiloso 24 horas por dia, pelo telefone 188 ou pelo site www.cvv.org.br . Além disso, serviços públicos de saúde mental (como o CAPES) e hospitais universitários também contam com programas de apoio para jovens e suas famílias.

Sempre Alerta! Você não está sozinho!


Bibliografia:

Como a natureza fortalece a saúde mental dos jovens

Entre estudos, compromissos e a rotina acelerada, muitos jovens acabam passando a maior parte do tempo em frente a telas ou dentro de salas de aula e outros ambientes fechados. O que parece normal no dia a dia, no entanto, pode cobrar um preço alto: estresse, ansiedade, depressão, insônia e até desenvolvimento de outros transtornos psiquiátricos.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em todo mundo, 14% das crianças e adolescentes, entre 10 e 19 anos, têm algum tipo de transtorno mental. Já no Brasil, um levantamento da Fundação José Luiz Egydio Setúbal estima que cerca de oito milhões de menores enfrentam este cenário, aproximadamente um entre 5 jovens. Mas sabia que além do tratamento médico, há uma solução mais simples (e gratuita) para lidar com essas questões? Diversos estudos comprovam a eficácia de atividades ao ar livre melhoram a saúde!

Uma pesquisa publicada no JAMA Network Open mostrou uma melhora no bem-estar de estudantes após escolas acrescentarem tarefas na natureza à grade curricular (mais um motivo para investir no Escotismo nas Escolas, hein!). Além disso, um estudo revisado por pares da Universidade de Utah publicado na revista Ecopsicologia, concluiu que passar ao menos 10 minutos em contato com a natureza ajuda a aliviar sintomas de ansiedade, estresse e depressão e tiveram efeitos positivos ainda maiores em participantes diagnosticados com transtornos do humor. E, falando mais especificamente sobre Escotismo, uma pesquisa da Universidade de Edimburgo concluiu que pessoas que foram escoteiros quando jovens tiveram menos risco de ter problemas mentais quando estavam com 50 anos de idade! 

Foto por Fernando Ariotti

Dentre os benefícios de estar em contato com a natureza estão:

  • Redução do estresse e ansiedade.
  • Melhora do humor.
  • Aumento da criatividade.
  • Melhora da concentração, memória e capacidade de resolver problemas.
  • Redução da pressão arterial e melhora dos batimentos cardíacos.
  • Melhora da qualidade do sono. 
  • Fortalecimento do sistema imunológico.

E isso vale para todos! Mas quando falamos da saúde mental dos jovens, que estão em construção de si mesmos, precisamos olhar com carinho para o processo de desenvolvimento. Isso significa ajudar a construir autoestima, desenvolver habilidades para lidar com emoções e relações, ao mesmo tempo em que se está aberto e curioso para aprender com o mundo. E que forma melhor de aprender do que explorando? No Programa Educativo, é isso que acontece.  Através das atividades que os jovens encontram espaço para se desafiar, fortalecer vínculos e descobrir mais sobre si mesmos. E esse contato com a natureza e com o grupo cria experiências que não só estimulam o aprendizado, mas que também trazem todos os benefícios que já foram citados! 

Mas como conseguir aplicar isso na rotina?

Na correria do dia a dia nem sempre há tempo para uma caminhada no parque, mas você pode tentar trazer um pouquinho da natureza para mais perto de você com essas dicas!

  • Jardinagem: pode ser uma plantinha ou uma mini-horta, isso já cria conexão diária com a mãe natureza. Ah, e não fique triste se as primeiras não vingarem! O importante é continuar tendo esse contato com a terra!
  • Sempre que possível opte por caminhar ou pedalar por ruas arborizadas, ou parques, no seu trajeto diário.
  • Faça pausas durante seu dia: pode ser na hora do almoço ou durante um cafezinho da tarde, aproveite esse momento para ir a um ambiente externo. Pode ser numa varanda, terraço… O importante é sentir o sol na pele por alguns minutos.
  • Observar a vida ao redor: durante suas pausas, evite ficar com telas. Aproveite esse momento para apreciar o céu, suas cores e nuvens, os pássaros voando, as formigas trabalhando… O extraordinário está no simples e são esses momentos que nos dão um “respiro” essencial para nossa saúde física e mental. 
  • Decorações naturais: trazer um pouquinho do lado de fora para sua casa ou trabalho é mais fácil do que parece! Invista em plantas de fácil cuidado — suculentas, samambaias e jiboias purificam o ar e deixam o espaço mais vivo — e fontes pequenas para trazer sensação de tranquilidade. Você também pode usar óleos essenciais, incensos ou velas com fragrâncias de plantas e flores para deixar o ambiente mais aconchegante

BIBLIOGRAFIA: 

Como o voluntariado melhora sua qualidade de vida?

O mês de setembro é conhecido pela campanha de conscientização ao combate do suicídio e é quando há mais destaque sobre a temática de saúde mental, mas você sabia que o voluntariado também é uma forma de cuidar dela?

De acordo com a American Psychological Association (APA), a atividade voluntária pode trazer diversos benefícios:

  • Redução do estresse e da ansiedade
  • Maior senso de propósito e significado
  • Melhora da autoestima e do bem-estar emocional
  • Diminuição do risco de depressão
  • Sentimento de pertencimento e reconhecimento social

Esses fatores se somam ao prazer de perceber que é possível causar impacto positivo na vida de alguém e na sociedade. Além disso, traz uma melhora significativa da autoestima e da visão de si mesmo e do seu reconhecimento social por estar vinculado a uma causa com propósito, sentimento de pertencimento e satisfação em perceber que pode mudar algo na vida de alguém e na sociedade. Algumas pesquisas mostram resultados de ressonâncias magnéticas após um ato de altruísmo e o como a atividade neural muda para melhor

Para que esse impacto seja de fato saudável, é importante entender que o voluntariado deve ser escolhido conforme disponibilidades de tempo, interesse e condições físicas e emocionais para que não se torne mais uma carga mental como se fosse uma “tarefa” a ser cumprida na sua rotina. 

A psicóloga Flávia Marucci-Dalpicolo — professora do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da FMRP/USP (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo) e diretora do Serviço de Psicologia Hospitalar do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto — reforça que realizar algo diferente da área de trabalho já ajuda a reduzir a autocobrança, justamente por desvincular o valor profissional do pessoal e das exigências por performance. Ela ainda acrescenta: “não há nenhum problema em ser voluntário apenas em uma ação específica ou por um período determinado. Sempre é útil e pode proporcionar bem-estar!”

Outro ponto essencial é o papel das instituições. Elas devem oferecer segurança e capacitação, criando um ambiente positivo para os voluntários. Lembre-se que é importante equilibrar o tempo dedicado, já que o excesso pode gerar estresse em vez de bem-estar. E isso é exatamente o oposto do que queremos, certo?

Cuidar da saúde mental pode estar em gestos simples, como dedicar tempo a uma causa maior. O voluntariado é uma forma de transformar vidas — inclusive a sua. 

Que tal dar esse passo com a gente? 

Seja voluntário nos Escoteiros do Brasil e descubra como pequenas ações podem gerar grandes mudanças!

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