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Dia da Consciência Negra: história e Escotismo!
O Dia da Consciência Negra é celebrado em 20 de novembro, homenageando Zumbi dos Palmares, o líder do Quilombo dos Palmares, e marca a luta contra a escravidão e o racismo. Porém, o feriado nacional só foi decretado em 2023 (e trouxe várias polêmicas na época!); por mais que muitos pensem que essa data não vai mudar nada ou sequer trazer questionamentos, é aqui que iremos atuar como agentes de mudanças e mostrar que o racismo estrutural na sociedade brasileira ainda é (infelizmente) mais presente do que imaginamos.
Todo escoteiro de carteirinha sabe que o Escotismo chegou ao Brasil em 1910, junto com a Marinha, um período marcado por tensões que envolviam tanto a instituição militar quanto a questão racial no país. Mas o que pouca gente imagina é que, naquele mesmo ano, essa diferença no tratamento entre negros e brancos desencadeou uma revolta dentro da própria Marinha.
A Revolta da Chibata ocorreu no dia 22 de novembro de 1910, tendo como estopim a punição brutal de 250 chibatadas aplicada ao marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes, por ter brigado com um cabo da Marinha. A revolta começou na madrugada de 22 de novembro, quando marinheiros do encouraçado Minas Gerais tomaram o controle da embarcação para exigir o fim dos castigos físicos, melhores condições de vida e trabalho e anistia para quem participou da ação. Esse motim também denunciou os maus-tratos, o tratamento desigual e a falta de acesso a patentes para pessoas negras na Marinha, algo visto à época como um resquício da escravidão.
E segundo Robson Moraes — historiador e escotista do grupo Quarupe 241°/SP — esse navio é o mesmo que vai para a Inglaterra e importa o Escotismo para nossas terras tupiniquins!
Os responsáveis por esse navio, os suboficiais Amélio de Azevedo Marques e José Affonso Severino Drumond (ambos negros!) foram dois dos introdutores do Escotismo no Brasil em 1910!

A questão é que o Escotismo que chega aqui é diferente do que foi proposto lá…

“Primeiro ponto: o Escotismo chegou ao Brasil já um pouco distorcido. Quando Baden-Powell pensou no modelo educativo, dialogou com grupos como a Boys Brigade, na Inglaterra, e com associações juvenis da França para criar uma proposta atraente e menos rígida. Mas, ao chegar ao continente americano, especialmente no sul, a ideia difundida foi apenas a de que o movimento nasceu de um militar inglês.
E não criado por um militar inglês que queria uma ruptura com os modelos tradicionais existentes e rígidos, principalmente pensando na educação inglesa, né? Nos textos de Baden-Powell ele fala sobre a importância do vigor físico; mas ele fala também da importância da alegria, da autorregulação… Coisa que não se falava à época! E então ele já propunha essa ruptura. Ruptura que não chega aqui. Pelo contrário, só chega a primeira parte da frase, né? Baden-Powell, um ex-militar inglês.” — Robson Moraes
Além disso, tanto Robson, quanto Aldenise Cordeiro — historiadora e dirigente, também participante da patrulha jaguatirica, formada por pesquisadores do movimento escoteiro — contextualizam que apesar das coincidências históricas, o Escotismo não foi afetado diretamente. Nessa virada do século XIX para o XX há muita influência do positivismo e do liberalismo, compartilhando muitos valores com o Movimento Escoteiro: fraternidade, sentimento de universalidade, ordem, disciplina e preparo da juventude para realizar progresso.
Aldenise também pontua diferenças que o Movimento teve ao se espalhar pelo território brasileiro. De acordo com uma de suas fontes de pesquisas, Jorge Carvalho, desenvolveu-se duas grandes correntes de Escotismo: uma mais pedagógica e outra mais militarizada, especialmente no Sul e no Sudeste.
Apesar de visar uma abertura dentro da educação formal, acabava limitada apenas a quem tinha acesso a essa educação; nessa época, uma minoria branca, com posses e influência. Assim, nem a educação, nem o Escotismo e muitas outras oportunidades chegavam para a periferia social, formada majoritariamente por pessoas negras e pobres que ainda sofriam com o estigma da escravidão e com as tentativas de criminalização de suas ações.
Infelizmente, essa herança se estende até hoje, com o que é chamado de “racismo estrutural”: quando esse passado escravagista organiza o modo como a sociedade funciona hoje em dia, mesmo que inconscientemente. Em países como o Brasil, isso faz com que pessoas negras sejam empurradas para posições subalternas (ou que não evoluam para cargos de liderança), sofram mais com pobreza, menos oportunidades e violência policial.
E essa estrutura é tão normalizada que acaba adentrando em todos os lugares, até mesmo no Movimento Escoteiro. Uma prova disso é um depoimento da escotista Zéu Gonçalves, que conta que em 1998 vivenciou duas situações de discriminação racial: durante uma viagem nos Estados Unidos, após um Jamboree na Guatemala, um chefe escoteiro local criou situações constrangedoras para os jovens negros ali presentes. Já a outra, foi quando seu grupo foi convidado para atividades turísticas e acampamentos no Rio Grande do Sul, porém impedidos de participar de um evento tradicional gaúcho devido à cor da pele; mesmo que o grupo escoteiro anfitrião não tivesse controle disso, ela conta que foi uma grande decepção.
“Mas aí caiu a ficha de que também no Movimento existe racismo, né? Uma das coisas que eu percebi ao longo desses anos é que a gente pouco se via, por exemplo, nas imagens das nossas literaturas, né? Pouco se via lobinhos, lobinhas negras sendo representados na nossa literatura.”
Atualmente, os Escoteiros do Brasil têm ações para reduzir essas lacunas sociais através de isenções e implementação de políticas de diversidade e inclusão, além dos Espaços Seguros e maior representatividade e pluralidade nos materiais institucionais. Mas sempre é possível ir além! Refletir sobre nossa história, valores, trajetórias individuais e coletivas é indispensável para manter o Escotismo em movimento!
Pensando nisso, nessa data tão importante, viemos homenagear pessoas negras que diariamente contribuem (ou contribuíram) para a continuidade do legado de Baden-Powell, para que o Escotismo continue formando jovens para um futuro melhor!

Thaís Carvalho Sobreira — Profissional Escoteira da região de Minas Gerais, Diretora financeira no 55ºGE João XXIII, Juiz de Fora–MG: Sua trajetória no Escotismo iniciou-se em 2004, inspirada pelo exemplo do irmão (mesmo que relutante na época!). Conquistou todas as insígnias de interesse especial de cada ramo: Cruzeiro do Sul, Lis de Ouro, Escoteiro da Pátria e Insígnia de BP. cada uma delas representando muito esforço e aprendizado e, em suas próprias palavras: “acima de tudo, orgulho de ocupar um lugar que nem sempre foi pensado para meninas negras tímidas — mas que hoje é também meu, e de tantos outros que vieram e virão.”
Hoje, o que a impulsiona é manter essa referência viva: acolher, servir, inspirar e afirmar que sua cor, sua história e sua voz têm lugar na construção do Escotismo. Thaís afirma com convicção que “Representatividade importa. Quando jovens negros veem lideranças negras, eles entendem que podem conquistar e inspirar também. O Escotismo é um movimento de oportunidades, mas elas só se tornam reais quando todos se sentem pertencentes.”

José dos Santos Marques — Conhecido pelo vulgo “Zé Lamparina”, participou da Revolução de 1932 como mensageiro e guia de tropas, estava presente no bombardeio da estação onde morreu Aldo Fiorato. Além disso, atuou na FEPASA, onde ajudou a montar a última locomotiva do país. O apelido veio de um personagem da revista Tico-Tico e se reforçou porque ele produzia lamparinas para financiar o Grupo Mogiana.
Iniciou no escotismo em 1929, na associação de escoteiros católicos Nossa Senhora da Conceição, em Campinas, e destacou-se pela liderança. Fundou o Grupo Ubirajara, chefiou a tropa entre 1938 e 1942 e dirigiu o antigo Grupo Escoteiro Mogiana de 1942 a 1972. Em 1972, assumiu o Grupo Escoteiros Craós, a convite do Círculo Militar de Campinas.
Foram mais de 80 anos dedicados ao escotismo, deixando um legado que segue formando jovens com foco em cidadania, patriotismo e respeito à natureza.
Entre as condecorações recebidas estão a Medalha MMDC (1962), Cruz de São Jorge (1982), Cruz de Valor (1982), Velho Lobo (2005), Mario Covas (2008), Gratidão Ouro (2009), Gratidão MMDC (2012) e Comenda Tiradentes (2013). Além disso, era tão querido pelas crianças e adultos que ganhou uma música interpretada em 2015 pelo Grupo Craós. Zé Lamparina faleceu em 2016, às vésperas de completar 101 anos.

Gene Nelson Lima Carvalho — Chefe da Tropa Sênior, do 20° Grupo Escoteiro José Ribamar, São Luís–MA:
Iniciou sua trajetória no Escotismo em março de 1974, como Escoteiro do Mar, onde encontrou o valor da amizade, sem distinção de raça, cor e credo! Conta que dentre seus maiores desafios foram quando era pioneiro e precisou assumir a assistência da Tropa Escoteira, como Chefe de Grupo no 1° Grupo Escoteiro Yanomami, mas o maior sendo quando precisou resgatar um jovem que caiu em um poço com fogo! Conduziu tudo com calma e técnica, e o resgate foi um sucesso!. Ao entregar o rapaz aos pais, ouviu um agradecimento que marcou sua trajetória e reforçou o valor do seu voluntariado.
Diz que sua maior conquista no Movimento Escoteiro foi ver jovens que orientou crescerem com os princípios do Escotismo. Sobre representatividade, afirma ser respeitado e reconhecido como uma liderança negra que contribui para o Movimento no Maranhão. Hoje, o que o move é seguir participando ativamente do Escotismo, a escola que escolheu para a vida.

Zéu Gonçalves — Akelá e Diretora de Patrimônio do 33º Grupo Escoteiro Cardeal da Silva, Salvador-BA:
Sua trajetória no Escotismo começou em 1985, quando tinha 15 anos, porém, seu registro não existe! Na época o seu grupo ainda não aceitava meninas, mas permitiram (informalmente) que ela apoiasse como Balú na Alcateia. Isso mudou quando ela completou 18 anos, em 1988/1989, quando formaram o clã de Pioneiros e conseguiu finalmente o seu registro escoteiro! Ela diz que “O Escotismo é um Movimento que me trouxe e me traz muitas alegrias, que transformaram minha vida!”
Desde amizades para a vida, quanto viagens pelos mais diversos lugares e oportunidades profissionais, ela conta que seu slogan é “o Escotismo é minha opção de vida”, por conta disso, começou a lutar mais pela representatividade negra dentro do Movimento, tanto em sua região, quanto no resto do Brasil! Ela diz que o que a move é ver o resultado do Escotismo em quem já foi seu lobinho, em suas próprias palavras: “isso só transforma mesmo em alegria, porque é muito bacana você ver uma criança crescer, se desenvolver e hoje está aí, fazendo do nosso mundo um mundo melhor!”
Agradecemos a todos os muitos outros nomes que durante todos esses anos ajudaram a construir a história dessa instituição de do Movimento Escoteiro no nosso país.
Que essas vozes inspirem novas trajetórias e reforcem um Escotismo (e uma realidade!) que celebre a diversidade entre nós!
BIBLIOGRAFIA:
- “Escoteiros do Brasil: 100 anos da UEB”, de Antonio Boulanger (2004) (você pode adquirir o livro na Loja Escoteira!)
- Navios de Guerra Brasileiros: Minas Geraes – Tipo Dreadnought – Classe Minas Geraes (último acesso em: 18/11/2025)
- “Morre ‘Chefe Zé’, que dedicou 87 anos ao escotismo no interior paulista”, por G1 Campinas e Região. (último acesso em 17/11/2025)
- Jose dos Santos Marques , por Thaís Guedes, na área Canto do Saber no site da UEB – SP (último acesso em 17/11/2025)


