Voluntariado pela educação

31 agosto 2016

CRIANÇAS E JOVENS QUE VALORIZAM o outro e a comunidade, pais que participam ativa-mente dessa formação, um movimento que envolve a família e, com seu sistema educa-cional, valoriza o desenvolvimento social e ambiental. Ser parte de um grupo de esco-teiros é mais do que viver aventuras, do que aprender a se virar num acampamento, do que dormir longe de casa. É participar da maior organização não governamental juve-nil do mundo e ser inserido num processo educacional que agrega a família e a escola. Em Betim, a atuação do 83º Grupo Escotei-ro Olave Saint-Clair é um exemplo do tra-balho desenvolvido mundo afora. Com 150 associados, sendo 116 jovens entre 6 e 21 anos, o grupo se prepara para chegar aos 35 anos de existência.

Com base nos fundamentos do inglês Baden-Powell, de 1907, o escotismo é “um movimento educacional de jovens que con-ta com a colaboração de adultos, valoriza a participação de todas as origens sociais, raças e credos e se configura como a maior organização mundial de voluntariado em prol da educação”, segundo descreve a União dos Escoteiros do Brasil. No país, o movimento chegou em 1924 e, hoje, já possui um contingente de mais de 83 mil escoteiros, sendo cerca de 20 mil voluntá-rios adultos. No mundo, de acordo com a União dos Escoteiros do Brasil, são mais de 40 milhões de pessoas envolvidas em 216 países. Por lei, a organização é reconhecida como instituição de educação extraescola.

Ricardo Machado é diretor técnico do Grupo Olave Saint-Clair, em Betim, possuin-do a Insígnia de Madeira, último grau do escotismo. Ele explica que no escotismo o associado é o adulto, que leva seus filhos e filhas. Seguindo o principio da coeducação, a entidade trabalha com o método baseado em técnicas para os jovens utilizarem suas potencialidades. “Abordamos os aspectos espiritual, físico, moral, além do civismo e competências para que o jovem conheça a si mesmo. O escotismo também tem uma função social, de envolvimento com a co-munidade”, diz.

A fundação do Grupo Escoteiro Olave Saint-Clair se deu graças ao espanhol Ro-drigo Hildebrand Robleño, então com 14 anos. Vindo de Madrid, na Espanha, ele queria continuar no movimento e decidiu que fundaria um grupo no Brasil com o mesmo nome do que ele participava. Primeiramente, ele entrou para a equipe de Mateus Leme e, em seguida, junto com o irmão Roger Robleño, o amigo Carlos Alberto Cardiel Roca, o Cuco, também descendente de espanhóis, e a irmã de ca-ridade Maria Abigail da Apresentação, ele foi atrás de tudo que era necessário para formar a equipe betinense. Eles mobiliza-ram as famílias até que tivessem todos os integrantes e iniciaram os trabalhos.

Tantos anos depois e já com uma estru-tura robusta, sempre expansão, o Grupo Escoteiro de Betim busca cumprir seu papel. E, assim, alguns projetos importantes e que impactam na comunidade são formata-dos pelos jovens.

RESPEITO AO OUTRO

Enxergar a dificuldade do outro, ajudar e respeitar. A estudante de gestão pública e chefe de escoteira Laura Ponte, 21, destaca alguns pontos que o grupo agregou à sua vida, além de todo o aprendizado prático que obteve. “Tive a oportunidade de traba-lhar a cidadania, de experimentar valores que estão à margem. O escotismo não é uma brincadeira. Ele me ajudou a ser mais œproativa, a ser desafiada e a me desafiar, a ultrapassar as barreiras sociais e a enxergar o outro”, afirma Laura e as amigas Mariana Souza e Kelly Morato, todas integrantes do Grupo de Escoteiros de Betim, idealiza-ram, há um ano, um projeto para recolher lacres de latas e trocá-los por cadeiras de rodas, o Lacre Amigo.

O projeto faz parte do programa edu-cacional da União dos Escoteiros do Brasil e está dentro da Insígnia de B-P (Baden–Powell). O cumprimento dos projetos está atrelado ao recebimento de distinti-vos e à progressão no grupo.

Juntas a garotas fizeram uma parceria com a associação Lacre do Bem e firmaram o compromisso de que o equipamento fosse doado para uma entidade de Betim. A instituição eleita foi a Associação dos Deficientes Físicos de Betim (Adefib), que empresta cadeiras de rodas e muletas para quem necessita no próprio município e em cidades do entorno. A meta era juntar 140 PETs cheias de lacres até abril deste ano.

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Além de mobilizarem o próprio Grupo de Escoteiros, elas levaram a ideia pela cidade por meio de parcerias com bares e lanchonetes, ŒOnde eram deixadas a garrafas identificadas com a campanha. Em‰ pouco tempo, o objetivo foi alcançado e até ultrapassado.

Duas cadeiras de rodas já foram doadas para a associação até agora. Uma foi fruto do recolhimento dos lacres, e outra, doada por uma família sensibilizada pela campanha. A proposta é con-seguir reunir a mesma quantidade a cada semestre e, assim, doar qualquer tipo de equipamento que esteja no valor gerado pela venda dos 140 PETs de lacres. Ou seja, além de cadeira de rodas, a meta é expandir a compra para muletas e acessórios necessários. Outras associações também devem ser beneficiadas. “Dentro do escoteiro, um projeto nunca anda sozinho. Criamos equipes de interesse que nos ajudaram a contabilizar os lacres, a mobilizar a sociedade e a levar a campanha para as redes sociais”, conta Laura, que entrou para o grupo aos 16 anos.

SAÚDE MATERNA

As mesmas reflexões tem a estudante Letícia Reis dos Santos, de 17 anos, pertencente ao ramo sênior do grupo. Ela e as amigas Maria Luyza Vida Caetano Rodrigues, 17, Marialice Nadu Braga, 16, e Klara Narumi Maia, 16, criaram o projeto Saúde Materna. O O trabalho faz parte da Insígnia do Desafio Comunitáriodo, mas, devido à sua relevância, as participantes também foram condecoradas com o distintivo de Mensageiros da Paz.

O trabalho, segundo Letícia, tem foco nos Objetivos do Milênio definidos pela Organização da Nações Unidas (ONU). Das oito metas (1-Acabar com a fome e a miséria; 2-Educação básica de qualidade para todos; 3-Igualdade entre sexos e valorização da mulher; 4-Reduzir a mortalidade infantil; 5-Melhorar a saúde das gestantes; 6-Combater a Aids, a malária e outras doenças; 7-Qualidade de vida e respeito ao meio ambiente; 8-Todo mun-do trabalhando pelo desenvolvimento), as jovens escolheram a ‰melhoria da saúde das gestantes, mas viram reflexo também em outros objetivos, já que o projeto promoveu a valorização das mulheres atendidas, e as informações influenciaram na redução da mortalidade infantil.

No Saúde Materna, as jovens se empoderaram de dados im-portantes sobre gestação e puerpério com especialistas e os le-varam até duas mães de Betim que vivem em situação de vulne-rabilidade social. Uma tem 14 anos, e seu bebê, 2 meses; a outra, com 25 anos, está grávida do quinto filho. As duas começaram a ser visitadas no início da gestação. Além de levarem informações mensais sobre alimentação, amamentação, parto, entre outros temas, as escoteiras também contribuíram com donativos que arrecadaram mobilizando os moradores de Betim. “Sinto que estou fazendo a diferença na vida delas e no mundo. É um aprendizado para a vida inteira”, diz Letícia. Para ela, está sendo enriquecedor entendendo a maternidade e o significado disso para a mulher, independentemente se foi ou não uma escolha dela. A mãe de Letícia é um exemplo de como as famílias estão orgulhosas do trabalho desenvolvido pelos filhos. “São quatro mulheres ajudando outras mulheres”, afirma Renilda Reis Nogueira, que é professora. “O projeto contribui muito para a formação e a visão de mundo delas, e é isso que o escotismo desenvolve”, diz. O projeto Saúde Materna ainda não terminou, e as participantes fazem um apelo aos cidadãos para que doem fraldas.

ARRECADAÇÃO

Além dos projetos, o Grupo Escoteiro promove todo 5 de novembro, em sintonia com a agenda nacional, a Arrecadação Municipal de Alimentos. É um dia de ação que mobiliza toda a cidade de Betim para a doação. Os alimentos são destinados a instituições do próprio município. Em 2015, foram recolhidas 2,5 toneladas de itens.

Na mesma mobilização, os escoteiros do Brasil voltaram as ações para as vítimas do desastre de Mariana, que matou 18 pessoas e deixou centenas de famílias desabrigadas e sem abas-tecimento de água. Foram arrecadados 2 milhões de litros de água em seis Estados (Goiás, São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) e 80 toneladas de materiais diversos, como alimentos, colchões, roupas, materiais de lim-peza e higiene pessoal. Mais de 3.500 escoteiros participaram como voluntários em uma grande força-tarefa.

Fonte: Revista Mais

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