Escoteiros do Brasil - Educação e lazer para crianças e jovens

Jovens escoteiras criam projeto de ajuda a gestantes

25 de abril de 2016


Jovem e cheia de planos, Tatiana*, 13, conta que, √†s vezes, lhe faltaram amigos para compartilhar as novidades, para dividir as ang√ļstias comuns √† adolesc√™ncia que havia chegado ou para confidenciar namoricos, paixonites e trivialidades. Eis que, com a pouca idade, ela ir√° enfrentar um desafio de gente grande: a maternidade. Mas agora Tatiana n√£o est√° t√£o sozinha. Quatro jovens escoteiras de Betim, na regi√£o metropolitana, desenvolvem um projeto baseado justamente no que faltou para a gestante: orienta√ß√£o, di√°logo e um bocado de carinho, que podem ser determinantes para as escolhas que Tatiana fizer daqui em diante.

Marialice Nadu Braga, Klara Narumi de Hamada Maia, Let√≠cia Reis dos Santos e Maria Luyza Vida Caetano Rodrigues, todas de 16 anos, s√£o as idealizadoras do programa Sa√ļde Materna. Para serem ‚Äúpromovidas‚ÄĚ e receberem a ins√≠gnia de ramo S√™nior ‚Äď uma esp√©cie de condecora√ß√£o ‚Äď, as escoteiras precisavam enfrentar um desafio que tivesse rela√ß√£o com as Oito Metas do Mil√™nio, estabelecidas pela Organiza√ß√£o das Na√ß√Ķes Unidas. O grupo escolheu duas: promover a igualdade de g√™nero e a autonomia das mulheres, e melhorar a sa√ļde materna. Assim, Tatiana e K√°tia*, de 25 anos e em sua quinta gesta√ß√£o, come√ßaram a fazer parte da vida delas.

H√° tr√™s meses, os encontros se tornaram frequentes, e, como amigas, elas trocam experi√™ncias e confid√™ncias. At√© parece uma turminha de meninas em festa e bem descontra√≠das. Mas, ao se atentar √†s conversas, mesmo muito novas, as escoteiras demonstram maturidade no trato com as gestantes e se tornaram refer√™ncia em preven√ß√£o e no cuidado com a sa√ļde. E se preparam para isso com ajuda profissional. Orienta√ß√£o.

Para realizar o projeto, as escoteiras t√™m a colabora√ß√£o de outros membros do grupo e tamb√©m de profissionais volunt√°rios, como uma m√©dica obstetra e uma psic√≥loga. Elas aprendem coisas b√°sicas sobre a gesta√ß√£o e a maternidade e repassam esses conhecimentos para Tatiana e K√°tia, como a import√Ęncia de uma boa alimenta√ß√£o, de seguir as orienta√ß√Ķes m√©dicas, de fazer o pr√©-natal, entre outras dicas.

‚ÄúElas (escoteiras) ajudam mais na parte de preven√ß√£o, para que tudo corra bem durante a gravidez. Elas vieram at√© mim, e eu passei uma s√©rie de informa√ß√Ķes. Al√©m disso, estou √† disposi√ß√£o sempre que precisam tirar d√ļvidas ou de alguma consulta‚ÄĚ, explicou a obstetra Adriana Diniz de Deus, 56, que auxilia o projeto. Adriana ressaltou ainda que esse trabalho tamb√©m tem um vi√©s psicol√≥gico e social intenso.

‚ÄúPara mim, elas s√£o muito legais. N√£o tenho uma pessoa para ir a minha casa, conversar e tal. √Äs vezes, me sentia sozinha, mas com elas isso passou. Agora, quando estou sozinha l√° em casa, eu mando no grupo (de WhatsApp) alguma mensagem, e a gente come√ßa a conversar‚ÄĚ, disse Tatiana. Assim como ela, para K√°tia, o mais importante da rela√ß√£o com as meninas √© a proximidade. ‚ÄúO pai do meu filho e a fam√≠lia dele n√£o t√™m me apoiado em nada. N√£o tenho muito a quem recorrer e agora eu tenho a amizade delas. Sei que posso pedir ajuda quando eu precisar‚ÄĚ, contou.

As escoteiras tamb√©m recolhem doa√ß√Ķes para as duas gr√°vidas e dividem os donativos conforme a necessidade de cada uma. Tatiana est√° no oitavo m√™s de gesta√ß√£o, e K√°tia, no quarto.

* Nomes fictícios

Na adolescência

Minas. Conforme a Secretaria de Estado de Sa√ļde, em 2015, 15,45% dos beb√™s nascidos vivos foram de m√£es com idades entre 10 e 19 anos. Em 2000, esse percentual era de 20,49%. Neste ano, j√° foram 5.801 partos em adolescentes.

No pa√≠s. De acordo com o Minist√©rio da Sa√ļde, a gravidez na adolesc√™ncia teve uma queda de 26% nos √ļltimos 13 anos. Os dados mais recentes, de 2013, trazem 555.159 beb√™s nascidos vivos (19,2% do total de partos).

A√ß√Ķes. O Minist√©rio da Sa√ļde informou, por meio de nota, que investe em pol√≠ticas de educa√ß√£o para a sa√ļde e em a√ß√Ķes para o planejamento reprodutivo. Uma das iniciativas √© a distribui√ß√£o das cadernetas de sa√ļde de adolescentes, com as vers√Ķes masculina e feminina. Em rela√ß√£o ao planejamento reprodutivo, o minist√©rio informa que garante o acesso a diversos m√©todos contraceptivos. De 2011 a 2015, foram distribu√≠dos 2,4 bilh√Ķes de preservativos masculinos e femininos.

Demandas vão além da questão financeira

Quando decidiram fazer um trabalho com gestantes, as escoteiras ainda n√£o sabiam bem qual seria o perfil delas. A ideia inicial era a de procurar jovens de baixa renda. No entanto, aos poucos, elas perceberam que as necessidades iam muito al√©m da situa√ß√£o financeira e que esse apoio tamb√©m poderia ser mais do que uma orienta√ß√£o sobre sa√ļde.

K√°tia, 25, est√° em sua quinta gravidez, √© m√£e solteira e cuida da casa e da fam√≠lia com a pens√£o que recebe dos tr√™s primeiros filhos. Ela descobriu que est√° sofrendo de press√£o alta, e, com isso, surgiu a necessidade de acompanhar atentamente sua sa√ļde. ‚ÄúO caso dela √© diferente, e ela precisa ter mais tranquilidade, pela dificuldade na gravidez. Com isso, al√©m de todo o acompanhamento, estamos tentando conseguir um advogado. Assim, ela pode tentar a pens√£o do filho ca√ßula‚ÄĚ, disse a escoteira Let√≠cia Reis dos Santos, 16.

K√°tia teve tr√™s filhos no primeiro casamento, e a mais velha tem hoje 10 anos. Depois de um relacionamento abusivo, segundo ela, conseguiu se separar do marido, mas ficou sozinha na educa√ß√£o das crian√ßas. Pouco tempo depois, ela engravidou novamente, e o ca√ßula, que est√° com 2 anos, tem v√°rios problemas respirat√≥rios e requer aten√ß√£o especial. ‚Äú√Č dif√≠cil cuidar deles sozinha. Eles s√£o muito agitados, e o mais novo precisa ir muitas vezes ao m√©dico. N√£o consigo trabalhar‚ÄĚ, relatou. O sonho da dona de casa √© fazer uma cirurgia de laqueadura, que a impedir√° de ter mais filhos.

No caso de Tatiana, de 13 anos, as escoteiras dizem que se trata de uma gravidez ‚Äúmais tranquila‚ÄĚ, por n√£o ter tantas demandas urgentes. O grupo se encontra com as duas ao menos uma vez por m√™s.¬†

Fonte: http://www.otempo.com.br/

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