Escoteiros do Brasil - Educação e lazer para crianças e jovens

Diretor do Kandersteg International Scout Centre conversa sobre o acampamento e oportunidades para brasileiros

29 de agosto de 2018


Entre tantas as características e princípios trabalhados pelo Movimento Escoteiro, a fraternidade é sempre lembrada. Seja pelo convívio em alcateias, tropas e clãs e também por cada Jamboree, compartilhar experiências e participar da troca de cultura promovida por estes encontros desenvolve em crianças, adolescentes, jovens escoteiros o senso de pertencer a uma grande fraternidade mundial.

Desde 1923, na Su√≠√ßa, um local recebe escoteiros de todo o mundo para o que os pr√≥prios organizadores chamam de ‚ÄėJamboree Eterno‚Äô: o Kandersteg International Scout Centre (Centro Escoteiro Internacional Kandersteg), ou KISC, mant√©m durante o ano inteiro o clima vivido nos acampamentos mundiais, com gente de todo o canto do Globo.

Felipe Marqueis, paulista de 29 anos, √© o atual diretor do local, e destacou em entrevista aos Escoteiros do Brasil detalhes sobre o acampamento europeu, e como fazer para que brasileiros possam participar ‚Äď como visitantes ou equipantes.

 

РO que exatamente é o KISC e como surgiu?

Somos um Centro Internacional de Escoteiros, surgido ainda nos anos 1920. Após o primeiro Jamboree Mundial, B-P queria um espaço em que se pudesse manter o ar de fraternidade mundial vivido nos Jamborees, mas que durasse mais de uma ou duas semanas. Na época, o presidente da associação de escoteiros da Suíça ofereceu um chalé na região dos Alpes, e B-P veio até aqui. Desde então, o Kandersteg recebe diariamente gente do mundo todo para viver tanto uma experiência de acampamento internacional, como para aprender mais sobre a cultura do escotismo. Deixamos de ser só um local de lazer, para ser um centro educacional, com várias atividades focadas em escotismo, comunidade internacional, natureza, auto conhecimento.

 

РE quais atividades são desenvolvidas por aí?

Hoje o KISC conta com mais de 100 atividades, trabalhadas em tr√™s √°reas tem√°ticas: amizade internacional, contato com a natureza e aventura. E a√≠ a gama √© enorme, e algumas op√ß√Ķes dependem da √©poca do ano. No ver√£o temos bastante coisa ligada √† √°gua, como canoagem, e no inverno as op√ß√Ķes s√£o ligadas √† neve, como esqui e snowboard. Temos um foco em sustentabilidade, e desenvolvemos worskhops em que s√£o discutidos t√≥picos que est√£o em alta pelo mundo, e que s√£o importantes para desenvolver o esp√≠rito escoteiro.

 

– Qual o fluxo de visitantes durante um ano ou temporada?

Como n√£o temos um pacote de dias em determinadas √©pocas, os visitantes acabam vindo por todo ano, em alta e baixa temporada. Na √©poca de ver√£o chegamos a ter cerca de 8 mil escoteiros por aqui, entre junho e setembro, para um total de m√©dia de 15 mil visitantes por ano. Em geral, s√£o grupos de 30 a 50 pessoas que organizam uma visita, e alguns casos, uma associa√ß√£o nacional reserva para um grupo maior ‚Äď como aconteceu recentemente com os Escoteiros da Austr√°lia, que vieram em mais de 300 pessoas. A perman√™ncia √© entre 07 e 15 dias, dependendo tamb√©m da dist√Ęncia que os visitantes percorrem at√© chegar aqui. Para os brasileiros, por exemplo, n√£o vale a pena toda a viagem pra ficar s√≥ uma semana, a√≠ acabam prolongando. A gente consegue acomodar simultaneamente 2 mil pessoas.

 

РE no caso dos brasileiros, qual é o fluxo?

Os brasileiros acabam vindo mais para ser staff, ou quando h√° algum evento grande pela Europa, como quando tivemos o Jamboree Mundial na Inglaterra em 2007 e o Moot na Isl√Ęndia, em que o pessoal tenta passar aqui para conhecer.

 

РFalando em staff, como funciona o processo de participação? Por quanto tempo?

Qualquer escoteiro que seja parte de uma Associa√ß√£o Nacional reconhecida pela WOSM, tenha mais de 18 anos e seja fluente em ingl√™s pode aplicar para trablhar aqui, independente da experi√™ncia. Existem contratos curtos, mais longos, e em alguns casos, os de longo prazo. Os curtos s√£o de tr√™s meses pr√©-determinados, com treinamento, e rodando pelas fun√ß√Ķes. Os mais longos s√£o de quatro meses a um ano, em posi√ß√Ķes fixas e de gest√£o, em geral. E a√≠ h√° cargos de diretoria, para planejamentos de longo prazo.

 

– Quais s√£o as oportunidades para servir ou trabalhar no Kandersteg?

Em geral,trabalhamos com cerca de 80 membros na equipe durante a alta temporada. Como dito, não é necessário que tenha experiência, desde que esteja entre os requisitos básicos. Existem critérios básicos que temos, como um balanço entre nacionalidades e gêneros, e para alguns cargos a experiência é importante. Mas o que buscamos realmente é gente motivada, com valores. O resto a gente ensina durante os treinamentos.

 

РQuanto tempo você está à frente do local? Qual o balanço que faz?

Tive uma primeira experiência de três meses em 2007, aí mais dois anos depois disso. Voltei ao Brasil em 2014, me formei em hotelaria e retornei para um contrato de quatro anos como diretor adjunto. Porém houve uma mudança no quadro, e a pessoa que ocupava a diretoria geral saiu. Fiquei um verão como diretor interino, e desde 2016 assumi a direção geral. Acho que a grande lição que tiro é aprender a apreciar tudo o que o Escotismo faz para formar cidadãos do mundo. Aqui podemos promover aos que participam do projeto um senso de comunidade internacional, de pertencimento em algo grande, uma visão em comum. O desafio de todo dia é criar um ambiente onde possam se sentir parte desta comunidade internacional, onde possam continuar o projeto de progressão pessoal.

 

– Como enxerga o atual momento do Escotismo brasileiro, tanto no Brasil como internacionalmente?

Acho que √© um momento de grande visibilidade que estamos tendo. √Č uma oportunidade que temos de trabalhar ainda mais o crescimento. Se comparamos com outros pa√≠ses menores e proporcionalmente com mais escoteiros, precisamos refletir um pouco. Temos muito a aprender em termos demogr√°ficos. Internacionalmente tamb√©m estamos tendo visibilidade, e o Congresso Mundial de Educa√ß√£o √© fruto disso. N√£o somos somente mais uma associa√ß√£o, mas temos projetos legais, e gente boa √† frente, representando a gente internacionalmente.

 

– Qual a mensagem que deixa para os Escoteiros do Brasil?

A mensagem que deixo √© a de sempre respeitar a diversidade dentro do Movimento. E de entendermos, no √Ęmbito internacional, que somos parte de uma comunidade maior. Temos muito o que ensinar e muito o que aprender com Escoteiros de outros pa√≠ses, e √© uma oportunidade pra entender e comparar perspectivas. O que estamos realizando em Roraima, na Amaz√īnia, s√£o projetos bons e impactantes, mas que talvez n√£o funcionem pra outros lugares, assim como projetos de outros lugares n√£o funcionem da mesma maneira no Brasil. √Č importante ter este di√°logo para crescermos juntos.

 

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